quarta
08/03/17

Entre estantes: mulheres migrantes

 

     Neste dia 8 de março de 2017, Dia Internacional da Mulher, mulheres de diferentes partes do mundo organizam a Greve Internacional de Mulheres – Paro Internacional de Mujeres (PIM) ou International Women’s Strike (IWS) – reivindicando direitos sob a bandeira “Se nossas vidas não importam, que produzam sem nós”.

     A proposta é paralisar a jornada de trabalho – de forma integral ou parcial – para refletir e debater sobre a realidade enfrentada pelas mulheres, que inclui o enfrentamento de desigualdades em diferentes esferas – econômica, social, no acesso a direitos etc. – exploração laboral, violência, racismo, xenofobia, dentre tantos outros desrespeitos. A ação dá sequência a grandes manifestações, como as que ocorreram recentemente na Argentina, Polônia e Estados Unidos.  

    Hoje, diversas mulheres, dentre elas muitas migrantes, marcham pelas ruas reivindicando direitos. Em São Paulo, a Frente de Mulheres Imigrantes e Refugiadas – formada em 2014 como um bloco específico dentro da Marcha de Imigrantes e que reúne diferentes coletivos que se posicionam em conjunturas políticas em prol dos direitos das mulheres migrantes e refugiadas, lutando por maior visibilidade e espaços de protagonismo – publicou manifesto em que afirma:

 

“ […] É preciso falar de gênero nas migrações. As mulheres que migram são expostas a riscos derivados de circunstâncias mais graves que os homens, por serem mulheres, em sua maioria, jovens e pobres. Estar em outro país gera o isolamento de nossas culturas, redes familiares e sociais, situações que provocam incertezas e maior vulnerabilidade. Nossa luta é por um mundo mais justo, sem fronteiras e sem discriminação, com acesso a direitos humanos, dignidade e cidadania plena para as mulheres imigrantes e refugiadas e pelo direito a migrar. Reivindicamos que hajam mecanismos concretos de proteção dos direitos das mulheres atravessando fronteiras precariamente em diversos lugares do mundo. Basta de ódio, machismo, racismo, xenofobia, exploração sexual, tráfico de mulheres e crianças. Nos queremos Vivas […]”.

 

     Em razão da simbologia da data, o texto do Blog traz a série “Entre Estantes” com um livro que aborda a temática das mulheres e das migrações. Escrito pela escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adiche, o romance “Americanah” acompanha a trajetória de uma mulher que migra da Nigéria para os Estados Unidos.

     É especialmente oportuno falar sobre a obra de Chimamanda no dia 8 de março. Declaradamente feminista, a autora se posiciona sobre o tema tanto em seus livros quanto em declarações públicas que circulam nas redes sociais com frequência. É autora também de “Hibisco roxo”, “Meio sol amarelo”, “Sejamos todas feministas” e “Para educar crianças feministas – um manifesto”.

     “Americanah”, por sua vez, conta a história de Ifemelu, uma mulher nigeriana que se muda ainda jovem para os Estados Unidos, para estudar. Na época, década de 1990, a Nigéria encontrava-se sob uma ditadura militar. As universidades em Lagos, sua cidade natal, encontram-se paralisadas e Ifemelu consegue uma bolsa parcial de estudos nos Estados Unidos; com o contato de uma tia que já encontrava-se lá a algum tempo com o filho, muda-se para Nova York onde passa a viver como migrante.

     O romance, no entanto, não segue uma ordem cronológica linear. Inicia-se com Ifemelu já mais velha, treze anos depois de sua chegada aos Estados Unidos, quando resolve, pela primeira vez, voltar para Lagos. Os capítulos alternam-se entre esse momento, em que a protagonista reflete sobre sua vida e suas decisões enquanto trança os cabelos e um salão de beleza para afro-americanas, e longos flashbacks que nos contam toda a sua história desde o momento de sua partida da Nigéria até o recentes acontecimentos que a fizeram tomar a decisão de deixar os Estados Unidos.

     Por sua vez, um outro personagem tem bastante destaque na trama, que também acompanha sua trajetória: Obinze, o namorado da juventude que Ifemelu deixou em seu país de origem e que, nesse meio tempo, se tornou um importante empresário em Lagos, após ter vivido inúmeras reviravoltas, inclusive passando algum tempo como migrante não documentado em Londres.

     Durante os anos em que Ifemelu vive como migrante nos Estados Unidos, acompanhamos sua vida acadêmica, conquistas profissionais e relações amorosas, mas também a dura realidade das dificuldades econômicas, racismo e xenofobia que a jovem nigeriana encontra em seu caminho. Em uma passagem do romance, Ifemelu afirma que somente se entende como “negra” quando sai da Nigéria e assim, compreende que essa contraposição a “branca” tem importantes – e muitas vezes dolorosas – consequências.

     A luta contra o preconceito, as barreiras culturais, a busca por inserção no mercado de trabalho como mulher africana e suas relações sociais e pessoais determinadas por sua condição de migrante são apenas alguns dos temas que esse romance traz em seu cerne. Tudo isso é envolvido por uma narrativa fluida e extremamente prazerosa. Ainda que trate de uma trajetória bastante específica, “Americanah” traz em si muitas reflexões sobre a própria questão humana. É, com certeza, um livro que merece ser lido por todos, tanto homens quanto mulheres, migrantes ou não.

     O livro faz parte da coleção bibliográfica do MI e está disponível para leitura no CPPR. Venha conferir!