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segunda
15/01/18

Hospedaria de histórias: do Broccoli ao Descalzo – alguns sobrenomes curiosos nos registros da Hospedaria

O Museu da Imigração é um espaço afetivo para várias famílias. Como muitos devem saber, a Hospedaria de Imigrantes do Brás – edifício em que se localiza atualmente o Museu – abrigou milhões de pessoas, das mais diversas origens. Felizmente, muitos dos registros históricos de quem passou por aqui foram conservados ao longo dos anos, tornando possível saber se nossos antepassados estiveram na antiga hospedaria em algum momento do século XIX ou século XX.

 

Milhares de pessoas, todos os anos, procuram o museu para saber de suas famílias. Origens, cidades onde moravam, a data da chegada, o porquê da vinda, para onde foram. Tais pesquisas começam sempre por uma de nossas principais marcas na sociedade, uma marca que carregamos por toda a vida e que, muitas vezes, passamos para nossas próximas gerações: o sobrenome.

 

Às vezes, a origem de nossos sobrenomes carrega significados que não representam mais nossas características ou profissões. Schneider, por exemplo, é um sobrenome alemão comum; muitas famílias Schneider chegaram ao Brasil. O significado? Alfaiate. Agora, quantos Schneider são alfaiates hoje em dia? Rossi é um dos sobrenomes mais comuns na Itália. Se considerarmos suas variações, como Russo, ele se torna ainda mais preponderante. Sua origem remete ao “rosso”, que significa vermelho, ou seja, pessoas ruivas. Quantos Rossi brasileiros são ruivos? Pela Hospedaria passaram algumas dezenas de Schneider e mais de mil Rossi.

 

Mas nossas famílias não são formadas apenas de sobrenomes comuns, difundidos por várias regiões. Há aqueles sobrenomes raros, muitas vezes curiosos, que nos dizem um pouco mais sobre as origens de determinadas pessoas. Pela Hospedaria de Imigrantes, por exemplo, passaram descendentes de um sujeito que gostava de cantarolar enquanto caminhava pelas ruas de L’Aquila. Será? Bom, o sobrenome da família é Passacantando. Quem há de negar a fé das famílias Buoncristiano (bom cristão) e Paternoster (Pai-Nosso)? Ou quem deixará de pedir conselho para a família Buonconsiglio (bom conselho)?

 

Aliás, continuando pelas terras italianas, devemos falar de comida. Produtores ou comedores, certa família devia ter uma relação muita estreita com os brócolis: daí sobrenome Broccoli. Para comer uma boa almôndega bastava visitar a residência dos Polpetta. Será que seus descendentes continuam a fazer essa iguaria? E o que falar dos Colcomero (melancia)? Na terra da excelente massa, eles viviam da fruta?

 

Vamos aos espanhóis. Eusébia chegou ao Brasil em 1897 acompanhada do marido e filhos. O sobrenome dela era Seisdedos. Será que era uma marca da família? Esperamos que os membros da família Descalzo tenham arranjado sapatos para viajarem ao Brasil, da mesma forma que esperamos que os membros da família Cansado possam ter descansado bem nas dependências da Hospedaria. Por fim, desejamos também que os imigrantes de sobrenomes Ladrón, Ladrón de Guevara e Ladrón de Guavoia não tenham tido problemas com a polícia quando chegaram em São Paulo. Afinal tal termo não possui relação com a palavra “ladrão”, pelo menos no que diz respeito a essas famílias.

 

Como podemos ver nesta pequena amostra, o Museu da Imigração guarda diversas histórias de milhares de famílias. Tenham elas sobrenomes mais conhecidos, menos conhecidos, curiosos ou não, elas fazem parte da história da instituição de maneira singular; começaram a escrever aqui os primeiros capítulos de suas histórias no Brasil – daí o afeto, mencionado no começo do texto. Independente das trajetórias percorridas por essas famílias antes de migrarem e depois, o ponto comum de suas histórias é a Hospedaria de Imigrantes do Brás.