sexta
03/03/17

Hospedaria de Histórias: Entre idas e vindas

No próximo dia 9 de março, quinta-feira, será apresentada no Museu da Imigração, pela terceira vez, a palestra “Pesquisando Documentos de Família”. Além das informações mais técnicas relacionadas aos melhores métodos e caminhos para fazer uma pesquisa eficiente, a “palestra-conversa” é sempre uma grande oportunidade para ouvir histórias.

 

Tais histórias, à primeira vista, podem parecer um tanto recorrentes:

– “Meus antepassados vieram para o Brasil, de navio, fugindo de crises econômicas, guerras, perseguições e se estabeleceram no estado de São Paulo para trabalhar na lavoura”.

 

Se sua família é formada por descendentes de imigrantes certamente sua história tem algumas ou todas essas características mencionadas acima. Mas, além desse padrão, a riqueza da história da imigração no Brasil é construída também pelas singularidades das trajetórias das famílias que escolheram nosso país como destino; essas trajetórias aliadas aos contornos gerais da aventura de migrar transformam essas histórias.

 

A Hospedaria de Imigrantes, nesse sentido, é um caso excepcional para compreendermos partes importantes das trajetórias das famílias (i)migrantes que se fixaram em São Paulo, principalmente. A Hospedaria é vista, frequentemente, como símbolo do começo de uma nova vida para essas pessoas e muitas vezes funcionou literalmente como local de origem, sendo que vários nascimentos ocorreram nesse prédio. Para outros tantos indivíduos a Hospedaria foi, na verdade, um ponto final – tendo em vista os falecimentos sucedidos no edifício.

 

Berçário da Hospedaria de Imigrantes. Acervo Museu da Imigração/APESP

 

Foram muitas, milhões de histórias que tiveram capítulos escritos na Hospedaria. Imaginem milhares de pessoas, de diversas procedências chegando todas juntas a um novo país, acondicionadas num mesmo local. Uma confusão! Todo mundo, à princípio, sem saber o que fazer. Crianças correndo e se perdendo, bebês chorando, gente tentando encontrar parentes ou esperando para ser repatriada, inúmeros representantes de fazendeiros e atravessadores tentando estabelecer contratos, muitas vezes abusivos, com a gente humilde. Pensem nas famílias vindas do quente sertão nordestino chegando em São Paulo no mês de julho por exemplo, ápice do inverno. A Hospedaria torna-se aqui, mais ainda, um abrigo.

 

Mas não foi apenas sofrimento. Como dito anteriormente, aconteciam também nascimentos. Casais tiveram seus primeiros filhos, outros deram irmãos aos já existentes. E certamente casais se formaram na hospedaria. Muito se fala de pessoas que se conheceram nos navios, mas há também aquelas que se conheceram na hospedaria, não é? Até casamento ocorreu por aqui.

 

Imigrantes japoneses, Tameo Takashi e Kiris Sekini, por ocasião de seu casamento na Hospedaria. Acervo Museu da Imigração/APESP

 

E o mais interessante de tudo isso é que 50, 80, 100, 130 anos depois da passagem dessas pessoas por esse prédio, passam também, visitando suas memórias, seus descendentes. Poucas pessoas no mundo têm o privilégio de conhecer lugares tão identificados com a história de suas famílias. E, além disso, saber que de algum modo sua história particular, como todas as outras, faz parte da História.  

 

Família de migrantes nacionais nas dependências da Hospedaria. Acervo Museu da Imigração/APESP