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sexta
29/12/17

Peça a peça – edição especial “Da cabeça aos pés”: Meias de seda Christian Dior

 

No primeiro fim de semana de dezembro foi aberta a nova exposição temporária do Museu da Imigração, “Da cabeça aos pés”. Nela, discutiu-se a relação entre identidade e migração por meio da exibição de acessórios de vestuário – tanto peças pertencentes ao acervo do museu, quanto emprestadas pelo público.

 

As peças fornecidas pelos participantes relacionam-se intimamente com suas trajetórias e afetos, sendo repletas de significados subjetivos. Já as peças da coleção museológica do MI foram selecionadas a partir de seus atributos materiais, visto que possuímos poucas informações sobre suas histórias, bem como de seus doadores.

 

Dentre esses objetos, selecionamos uma meia-calça de seda. Juntamente com outros acessórios de corpo, ou seja, aqueles que são usados diretamente sobre a pele, a meia foi apresentada na vitrine de forma estendida, ao lado de sua embalagem original, que estampa o nome da grife “Christian Dior”.

 

Estas meias de seda, datadas da década de 1940, foram doadas por João Aparecido Feola, junto com outros itens relacionados com a antiga loja “Meias Bresser”: um painel com reportagem do Estado de São Paulo, de 2004, com reportagem com história da loja; um sapatinho de ferro para sustentação de perna para vitrine; uma perna de vitrine com meia vermelha; um mata-borrão com logotipo “Meias Bresser”; uma agulha de cerzir meia com caixa; um suporte base para colocar as meias; um motor de metal para consertar meia de seda; um talão de seção de conserto da loja “Meias Bresser”; um suporte de metal para fita gomada; um ferro elétrico para etiquetar as mercadorias; uma máquina de toldo um broche esmaltado com logotipo “Meias Bresser”; um livro de “Vendas à vista”.

 

Ao olhar para estas meias de seda junto à série de objetos doados na ocasião, inferimos que, de alguma forma, o doador deveria ter a intenção de preservar um pouco da história dessa loja, importante para a região da cidade de São Paulo onde encontra-se atualmente o Museu da Imigração. Devido ao seu bom estado de conservação e à presença da embalagem, trata-se, provavelmente, de uma peça sem uso – o que, por sua vez, reitera a relação da doação com a história da loja.

 

Ao abordarmos a temática dos acessórios, a especificidade das meias-calças finas e de tons transparentes levantou a questão de sua utilidade: se pouco servem para aquecer, sua transparência a torna quase imperceptível no corpo da mulher – porque, então, seriam (ou são) usadas?

 

O controle do corpo feminino é um assunto bastante debatido atualmente; cobrir partes do corpo é uma prática presente nas mais variadas culturas ao redor do mundo. No caso das mulheres, essa intenção é ainda mais complexa e diversificada. No caso das meias calças, por exemplo, a pele é escondida, mas a forma do corpo permanece visível. Sua tonalidade bege – um dos muitos tons de pele possíveis – dá um aspecto sutil ao disfarce da perna e às normas impostas a muitas mulheres que pretendiam usar uma saia mais curta, por exemplo.

 

Outra possível função deste acessório seria homogeneizar o tom da pele e disfarçar pequenas imperfeições – mais uma das muitas formas de controle do corpo da mulher e do reforço de padrões de beleza inacessíveis que buscam sempre a perfeição da imagem feminina.

 

Por fim, temos a associação dessa peça como um objeto da grife Christian Dior, que impõe mais um valor simbólico em seu consumo e uso – o status e prestígio tanto daqueles que as vendiam quando dos que as adquiriam. A preservação de sua embalagem é mais um indício do valor de ostentação associado às peças de marcas internacionais. Assim como abordado na exposição “Da cabeça aos pés”, a construção de personagens sociais é um dos usos subjetivos que os acessórios podem ter; a circulação de objetos, por sua vez, pode ocorrer tanto acompanhando os movimentos migratórios quanto como parte da circulação do mercado da moda. Os encontros culturais são, nessa perspectiva, uma das possíveis abordagens dessa rica tipologia de objetos encontrados no acervo no Museu da Imigração.

 

 

 

 

 

 

 

Conheça esta e outras peças na exposição “Da cabeça aos pés”

Sala de exposições temporárias – Museu da Imigração

 

Horário de funcionamento da bilheteria:

De terça a sábado, das 9h00 às 17h00

Domingo, das 10h00 às 17h00

Ingressos R$10,00 (inteira) e R$5,00 (meia)

Gratuito aos sábados