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terça
23/01/18

Peça a peça edição especial “Da cabeça aos pés”: Óculos – da utilidade ao ornamento

  

 

Na exposição temporária “Da cabeça aos pés”, apresentamos uma série de acessórios, entre eles alguns óculos: tanto peças de nosso acervo quanto empréstimos dos participantes do projeto. Dentre os exemplares de nossa coleção museológica, um deles possui armação em metal nas cores dourado, branco e cobre e plaquetas de silicone. Foi doado juntamente com um estojo protetor preto, branco e azul, em formato retangular, contém as inscrições: Yves Saint Laurent – grife francesa prestigiada mundo afora. Não é estranho grifes internacionais terem suas próprias coleções de óculos de grau. Quando foi que um acessório de saúde passou a ser usado como adereço e ser dotado de signos de prestígio social?

 

Atualmente, óculos são utilizado por grande parte da nossa população, tanto feminina quanto masculina. Mas nem sempre foi assim; os óculos, como acessórios de saúde, foram por muito tempo associados à intelectualidade e, por tanto, aos homens – detentores do saber, da funcionalidade, sobriedade etc. São pouco comuns os casos de retratos (pinturas ou fotografias) representando mulheres de óculos, até meados do século XX, pelo menos. Os óculos femininos eram normalmente ornamentais e considerados um apêndice desagradável à beleza feminina, que deveria sempre estar em evidência.

 

Aproximando-se da perspectiva dos estudos de gênero, as exposições participativas do Museu da Imigração têm incentivado um novo olhar para o papel do Museu como local de preservação da história: de forma diversa do que ocorreu em muitas instituições culturais ao longo do tempo, cujo foco muitas vezes era dado à história dos homens em determinado contexto, temos aqui objetos femininos contando histórias femininas. Eliseu Alves Waldman foi um dos poucos homens a entrarem em contato conosco com a intenção de compartilhar seus objetos e memórias – referentes à sua mãe, Rita Alves Waldman – para essa exposição. Entre os pertences familiares, encontramos uma fotografia, que Eliseu não soube identificar ou datar; ela chama a atenção justamente pela especificidade de acabamos de comentar: trata-se de uma senhora usando pequenos óculos conhecidos como pincenez, que pela composição visual da foto, inferimos ser de um período que corresponde ao final do século XIX e início do século XX.

 

Também encontramos um modelo de óculos parecido – um lornhão, com haste lateral – exposto em “Da cabeça aos pés”. Produzido em metal dourado, requeria o esforço de segurá-lo junto ao rosto quando sua utilização fosse necessária – algo bem menos prático do que os atuais modelos, com hastes. Podemos, inclusive, reparar que existem alguns pontos oxidados nessa haste, indicando onde era normalmente segurado. Essa peça possui ainda uma rachadura na lateral do aro direito; não sabemos quando ou como esse dano ocorreu, mas sua presença nos fez pensar sobre a possibilidade de realizar reparos ou trocar as lentes – hoje isso é comum ou preferimos adquirir logo um novo modelo? 

 

Com o incremento das tecnologias das lentes e com uma produção mais variada no mercado das armações, os óculos continuaram suprindo sua função inicial de correção da visão; porém, foram ganhando novas conotações de cunho estético, auxiliando no estabelecimento da comunicação visual de uma posição econômica, social, de pertencimento a um grupo etc. As grifes, como já comentamos no texto anterior desta série, reafirmam, em nossa sociedade, esses valores e afirmação de identidades individuais e coletivas. Além disso, podemos perceber uma maior preocupação com o conforto – no caso das hastes laterais que, apoiadas sobre as orelhas, deixam as mãos livres; ou das plaquetas de silicone que acomodam o contato com o nariz.

 

Um caso curioso presente em nossa exposição, diz respeito aos óculos emprestados por Katsura Eguti, que migrou ainda criança do Japão para o Brasil junto de sua mãe e sua irmã, na década de 1950. Os óculos eram de sua mãe, a artista Yoshinojo Fujima, que fundou a primeira escola de dança kabuki no Brasil. Seu estilo era o de uma verdadeira artista, e seus acessórios mesclavam influências orientais e ocidentais, e ela adorava portar peças de grifes internacionais e chegou a pintar o cabelo de loiro em uma época em que isso era pouco comum entre as orientais. Estes óculos eram uma de suas marcas registradas e está presente em muitas das fotos da família. Certamente era mais um símbolo de um estilo próprio, conformado por meio de sua experiência entre as duas culturas.

 

O mais curioso é que Yoshinojo era míope, mas se recusou a colocar lentes de grau em seus óculos favorito, para que as lentes não ficassem muito grossas, estragando o visual pretendido. Além de ser uma história carregada de afetividade, é um caso exemplar de como os óculos transitam pelo cotidiano exercendo os usos distintos: não mais um acessório de saúde, os óculos de Yoshinojo, com hastes em metal dourado, lentes translúcidas em dégradé de azul e rosa, com pedras azuis e prata nas laterais, significam muito mais para sua antiga portadora, assim como para sua família – e, agora, também para este Museu.

 

 

3. Óculos
Metal, vidro, plástico e pedras
Japão, ca. 1995
Acervo pessoal Katsura Eguti
Pertenceu a Yoshinojo Fujima (Miyako Nakamura)

5. Óculos
Acetato, acrílico e metal
São Paulo, Brasil, década de 1960
Acervo pessoal Eliseu Alves Waldman
Pertenceu a Rita, mãe de Eliseu

6. Óculos
Acetato, acrílico e metal
São Paulo, década de 1960
Acervo pessoal Eliseu Alves Waldman
Pertenceu a Rita, mãe de Eliseu

8. Lornhão
Metal e vidro
Alemanha, sem data
Doação Katharina Prepovic
Acervo Museu da Imigração 

10. Óculos
Metal, vidro e plástico
Sem local, sem data
Doador desconhecido
Acervo Museu da Imigração