sexta
27/01/17

Peça a peça: entre um bule de chá e a chegada de chineses no Brasil

Em tempos de celebração do ano novo chinês, baseado no calendário lunar e que em 2017 é regido pelo Galo, o texto do Blog dessa semana traz, a partir da série “Peça a Peça”, um objeto da coleção museológica do Museu da Imigração que nos remete à cultura chinesa: um bule de chá.    

 

Bule de chá. s/d. Acervo Museu da Imigração

 

O bule que apresentamos aqui é uma peça repleta de detalhes: em porcelana, traz pinturas principalmente nas cores vermelha, verde, azul, marrom e dourado; os desenhos têm motivos florais e geométricos, além das duas figuras humanas representadas no centro, em uma cena que lembra uma dança ou um galanteio. Além das duas alças e do bico, provavelmente havia uma tampa que se perdeu com o tempo.

 

No fundo do bule, encontra-se ainda uma inscrição em chinês, que parece ser a assinatura do artesão ou do proprietário. Praticamente não temos informações registradas sobre a trajetória dessa peça; sabemos apenas que ela foi doada ao Museu pela Fraternidade Descendência Americana, uma organização de Santa Bárbara d´Oeste cuja doação de um pequeno conjunto de peças deu origem ao núcleo inicial do acervo do Museu da Imigração dessa mesma cidade, no final da década de 1980. É possível que, em meio a esse processo, a peça que apresentamos aqui tenha vindo parar em nossa coleção museológica, por algum motivo que desconhecemos.

 

Detalhe da inscrição no fundo da peça

 

Em relação ao artefato em si, também podemos considerar a influência relevante dessa cultura presente na mesa dos brasileiros de vários períodos históricos; a porcelana chinesa foi um dos primeiros produtos globalizados que tiveram rápida aceitação quando adentraram o Ocidente, por volta do século XVI, primeiro como produto importado e, posteriormente, passando a ser produzida localmente. Essa circulação de objetos e técnicas influenciou os hábitos à mesa, os costumes e à própria arte ocidental ao longo do tempo.¹ Motivos conhecidos como chinoiseries – padronagens e temas que remetem à cultura oriental – ganharam destaque no design de muitos objetos de decoração, sendo utilizados inclusive na conformação da escola artística conhecida como impressionismo, em diversas partes da Europa.

 

O ritual oriental do chá viajou o mundo todo, incluindo a América. É interessante notar que o movimento migratório de chineses para o Brasil teve como ponto de partida, justamente, o cultivo do chá.

 

Os primeiros chineses ingressaram no Brasil no início do século XIX, motivados pelo desejo de Dom João VI de introduzir a cultura do chá no país. Em 1812, o navio Vulcano chega ao Rio de Janeiro com 300 chineses cultivadores de ervas da Província de Hubei, conhecida pela cultura do chá verde, trazendo mudas e sementes de Macau para a fazenda da família imperial, local em que hoje se encontra o Jardim Botânico Real. Os migrantes foram registrados no Brasil com nomes portugueses e cristãos e não com seus nomes originais.²

 

Ainda que o cultivo do produto tenha sido considerado um fracasso – muitos trabalhadores chineses se levantaram diante das condições de trabalho precárias e outros tantos fugiram e se mantiveram na cidade como vendedores ambulantes ou cozinheiros – o termo chinês “chá” se popularizou entre os brasileiros.³

 

Detalhe da pintura no centro da peça

 

 

 


¹Go Muo. A China em Portugal. Universidade de Aveiro, 2015. (Dissertação de mestrado)

 

²Shu Chang-sheng. Imigrantes e a imigração chinesa no Rio de Janeiro (1910-1990). Revista Leituras da História, v. ano II, p. 44-53, 2009.

 

³Jeffrey Lesser. A negociação da identidade nacional: imigrantes, minorias e a luta pela etnicidade no Brasil.(tradução: Patrícia de Queiroz Carvalho Zimbres). São Paulo: Editora Unesp, 2001.