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A estante do CPPR: leituras sobre migração e memória
Por Nicole Alexsandra – Analista de Pesquisa Jr.
“Ler mudou, muda e continuará mudando o mundo” - Virginia Woolf [1]
No Centro de Preservação, Pesquisa e Referência do Museu da Imigração (CPPR) [2], os visitantes encontram uma estante cuidadosamente organizada com livros que exploram a migração, a memória e a diversidade cultural. A seleção reúne obras acadêmicas, pesquisas históricas e publicações institucionais, oferecendo múltiplas perspectivas sobre o fenômeno migratório no Brasil e no mundo.
A iniciativa de disponibilizar esses livros busca aproximar o público da pesquisa e da reflexão, transformando a estante em um espaço de encontro entre visitantes, conhecimento e histórias de vida. Ao folheá-los, cada leitor tem a oportunidade de se conectar com trajetórias individuais e coletivas, entendendo a migração não apenas como um tema histórico, mas como vivência presente e contínua [3].
Entre os títulos, alguns se destacam pela curiosidade que despertam e pelo tempo em que permanecem nas mãos dos visitantes. É o caso de Nonni di São Paulo, de Oliviero Pluviano, jornalista italiano radicado no Brasil. O livro reúne memórias e histórias de imigrantes italianos, com 50 depoimentos de nomes da comunidade ítalo-brasileira. Além da publicação, o projeto incluiu uma exposição itinerante de mesmo nome, que esteve em exibição no Museu da Imigração entre 2020 e 2021 [4]. A obra revela a força da vida familiar e comunitária, marcada pelo trabalho, pelas festas e pelos desafios de recomeçar em uma nova terra, ao mesmo tempo em que preserva laços culturais transmitidos de geração em geração.

Outro livro bastante folheado é 100 anos de feiras livres de São Paulo, organizado por Antonio Hélio Junqueira e Marcia da Silva Peetz. A obra percorre um século de história das feiras da capital paulista, apresentando ainda um amplo contexto histórico das raízes das feiras mundiais, abrangendo desde o século XI [5]. Nesse contexto, a obra reforça as feiras como uma tradição urbana que simboliza uma experiência significativa de sociabilidade e de ocupação de espaços públicos [6]. Com bela apresentação, sendo ricamente ilustrado, e bilíngue em português-inglês, o livro mostra como esses espaços se tornaram símbolos da vida urbana. Cada página traz cenas familiares repletas de sabores, tradições e lembranças afetivas, tornando-se um convite à memória coletiva da cidade.

Já Hansik: 50 receitas da culinária coreana reveladas por João Son, de João Son, apresenta a culinária coreana como um elo profundo entre identidade e memória. Para além das receitas, o livro compartilha significados culturais, modos de preparo e histórias que atravessaram oceanos. A obra traz também contextos históricos e geográficos da culinária coreana, que busca um equilíbrio nutricional aliado à harmonia do sabor [7]. Nessa perspectiva, o autor destaca as principais características, ingredientes e temperos que compõem uma refeição coreana. A cada prato descrito, o leitor é conduzido a compreender a cozinha como espaço de pertencimento e de continuidade, no qual o passado dialoga com o presente, com saberes e tradições transmitidos pela culinária [8].

Fica claro, portanto, que esses três títulos, ao lado de tantas outras obras da estante, ajudam a mostrar como a experiência migratória se manifesta em diferentes dimensões: na vida cotidiana, no trabalho, na gastronomia, na preservação das memórias familiares e nas práticas culturais que integram a sociedade. Dessa maneira, mais do que um recurso de consulta, a estante é também um convite à leitura como forma de identificação e descoberta [9]. Ela reforça o compromisso do CPPR em transformar a pesquisa em experiência acessível, aproximando o visitante de conteúdos que dialoguem com o próprio cotidiano migratório. Com a exposição de obras selecionadas a dedo, a estante convida cada pessoa que passa por aqui a ler, refletir e se reconhecer nas histórias que moldam o nosso presente, fortalecendo o papel do Museu da Imigração como espaço de memória, encontro e aprendizado.
Referências
[1] Woolf, Virginia. O sol e o peixe: prosas poéticas. São Paulo: Companhia das Letras, 2021. Ensaio “A paixão da leitura”. E-book. n.p.
[2] Museu da Imigração. Centro de Preservação, Pesquisa e Referência (CPPR). Funcionamento: terça-feira a sábado, das 10h às 16h, exceto feriados. Entrada gratuita. Mais informações podem ser consultadas em: <https://museudaimigracao.org.br/acervo-e-pesquisa/pesquisa/atendimento>. Acesso em: 28 ago. 2025.
[3] Marandola, Eduardo., Jr; Dal Gallo, Priscila Marchiori. Ser migrante: implicações territoriais e existenciais da migração. Revista Brasileira de Estudos de População, v. 27, n. 2, p. 407–424, 2010. DOI: https://doi.org/10.1590/S0102-30982010000200010.
[4] Museu da Imigração. Nonni di São Paulo. Exposição temporária, 2020-2021. Disponível em: https://museudaimigracao.org.br/exposicoes/temporarias/nonni-di-sao-paulo. Acesso em: 28 ago. 2025.
[5] Junqueira, Antonio Hélio; Peetz, Marcia da Silva (org.). 100 anos das feiras livres em São Paulo. São Paulo: [s.n.], 2014.
[6] Mascarenhas, Gilmar.; Dolzani, Miriam Cristina da Silva. Feira livre: territorialidade popular e cultura na metrópole contemporânea. Ateliê Geográfico, Goiânia, v. 2, n. 2, p. 72–87, 2008. DOI: 10.5216/ag.v2i2.4710. Disponível em: https://revistas.ufg.br/atelie/article/view/4710. Acesso em: 28 ago. 2025.
[7] Son, João. Hansik: 50 receitas da culinária coreana reveladas por João Son. São Paulo: Edição do Autor, 2022.
[8] Baptista, Igor Dutra. A construção afetiva da comida. 2021. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Universidade do Minho, Braga, Portugal, 2021.
[9] Cândido, Antonio. O direito à literatura. In: Vários escritos. São Paulo: Duas Cidades/Ouro sobre Azul; 2004. p.169-91