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Bumba-meu-boi: andanças de um patrimônio imaterial
Laura Sousa - Analista de Pesquisa
Bumba-meu-boi; Boizinho; Boi-bumbá; Boi Calemba; Boi de Jacá; Boi-de-mamão; Boi Pintadinho; Boi de Reis; Boi de São João; Boi Surubi; Cavalo Marinho [1]. Muitas são as variações de nomenclaturas que a festa do boi tem em cada um dos estados brasileiros. Para além das denominações, as diferenciações também estão presentes no modo de realizar o festejo, seja a partir de distintos enredos, datas, indumentárias, personagens, instrumentos ou ritmos.
A festa do boi é caracterizada pela narrativa central que comemora a ressurreição do boi na lenda de Pai Francisco e Mãe Catirina, casal de negros escravizados e trabalhadores de uma fazenda. Certo dia, Catirina, que estava grávida, tem o desejo de comer a língua de um boi e, para satisfazer a vontade de sua esposa, Pai Francisco corta a língua do melhor animal da boiada. Ao perceber o sumiço do bovino, o dono da fazenda ordena sua busca e encontra o bicho já quase sem vida. O Pai Francisco é descoberto e preso, mas com a ajuda de um curandeiro (ou pajé), ocorre a ressurreição do boi e, consequentemente, a soltura do Pai Francisco, eventos que desencadeiam uma grande celebração [1].
Assim como no enredo da história do boi, a origem da festa também mescla influências africanas, indígenas e lusitanas, as quais podem ser observadas através das danças, músicas, ritmos, personagens, indumentárias e na própria religiosidade da celebração. Os registros mais antigos da festividade são da região Nordeste, mais especificamente do Maranhão, e datam do início do século XIX [1]. Os documentos encontrados consistem em trechos de denúncias e críticas realizadas pela elite local contra o festejo, e publicadas em jornais maranhenses entre 1820 e 1890 [1]. Nesse período, a maior parte dos brincantes eram pessoas negras e de camadas sociais com baixo poderio econômico, cuja expressão cultural foi perseguida pelas autoridades da época, conforme observa-se nas ocorrências policiais, a partir de 1828, que relatam agressões da polícia contra os integrantes dos grupos de boi [1]. Outrossim, de 1861 a 1868, o Bumba-meu-boi foi proibido no Maranhão sob a acusação de ferir a ordem e a moralidade [1]. Mesmo após o fim da proibição, as turmas de boi continuaram sendo impedidas de realizar o festejo na capital e no centro das cidades, e a celebração ficou restrita somente às periferias rurais [1]. Diante do histórico de cerceamento dessa expressão cultural popular, sua permanência até os dias de hoje, assim como sua disseminação de Norte a Sul do Brasil através das migrações, demonstram a relevância de uma análise acerca da patrimonialização deste bem cultural imaterial, assim como as modificações fruto do deslocamento de seus brincantes.
Durante o século XX, o pesquisador Mário de Andrade, através de seu livro As danças dramáticas do Brasil (1982), já havia alertado sobre a importância de preservar o Bumba-meu-boi, caso contrário, segundo ele, este seria relegado ao esquecimento [2]. A preocupação de Andrade surge após ele ter contato com o festejo durante a chamada Missão de Pesquisa Folclórica, viagens pelo Brasil em prol da documentação de diversas expressões culturais nacionais, realizadas em 1938 [2]. No âmbito institucional, a fundação da Comissão Nacional do Folclore, em 1947, e da Subcomissão Maranhense de Folclore, em 1948, também foram marcos para a valorização do folguedo, assim como seu reconhecimento como Patrimônio Cultural Imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 2011, e como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO - ONU), em 2016 [3, 4].
Segundo o Iphan, configura-se como patrimônio imaterial: “[...] tudo aquilo que dá sentido à memória e à identidade coletiva de um povo, mas que não é físico, concreto, material.” [5]. Essa designação engloba desde práticas religiosas, ofícios, modos de fazer e medicinas populares, a danças, músicas, festas, interações sociais e saberes compartilhados durante as celebrações [4 e 6]. No que tange a preservação dos bens imateriais, sua lógica difere das noções de preservação e conservação de patrimônios tangíveis, e convergem com ações de documentação, viabilização e manutenção dessas práticas e de suas transformações ao longo do tempo [7].
Quando uma pessoa migra e decide manter as celebrações de seu local de origem, é comum que ocorram modificações em prol da viabilização de uma prática cultural imaterial. Essas alterações podem estar atreladas a fatores como a falta de aporte financeiro na nova localidade ou à dificuldade em encontrar mão de obra especializada e matérias-primas para a confecção de indumentárias e instrumentos. Entretanto, para além dessas causas objetivas, também devem ser consideradas as subjetividades de cada pessoa migrante, suas redes de sociabilização, como ela articula seu arcabouço cultural e intelectual com suas vivências raciais, de gênero, de classe, e demais experiências que a atravessaram durante seu deslocamento e ao chegar no novo endereço.
Essas transformações que ocorrem com a festa do boi podem interferir, por exemplo, na escolha do período do ano em que a festividade ocorrerá. Alguns estados da região Norte, como Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima, celebram o Boi-Bumbá durante o mês de junho, sendo uma forte característica a rivalidade entre os grupos Boi Caprichoso e Boi Garantido. Já no Ceará, Piauí e Rio de Janeiro, o chamado Boi de Reis é comemorado durante o período natalino e mescla elementos da festa do Boi com a comemoração dos Três Reis Magos. Neste mesmo período, na macrorregião Sul, o Boi-de-mamão é comemorado no litoral do Paraná e de Santa Catarina. Já no Maranhão, território de origem do Bumba-meu-boi, os ensaios se iniciam no Sábado de Aleluia, a celebração tem ápice durante o mês de junho, período em que se comemoram os dias de São João, São Pedro, São Marçal e Santo Antônio, mas os rituais de morte do boi ocorrem de julho até o final do ano [1].
Para além das diferenças no modo de celebrar o boi entre os estados supracitados, também é possível observar que dentro de uma mesma unidade federativa há variações de instrumentos e personagens. Um enfoque no cenário maranhense permite observar que dentro do próprio estado cada grupo de boi possui sua especificidade, chamada de “sotaque”, de acordo com a sua sub-região. Em São Luís, é possível encontrar turmas fundadas por mestres que migraram de diversas regiões do Maranhão para a capital, e, com eles, levaram os modos de celebrar o boi em suas localidades. Existem cinco tipos mais comuns de sotaques na capital maranhense, nomeados de acordo com suas cidades de origem ou dos instrumentos utilizados, sendo eles: Sotaque de Matraca ou da Ilha, Sotaque de Zabumba ou de Guimarães, Sotaque Costa de Mão ou Cururupu, Sotaque de Orquestra e Sotaque da Baixada [8].
O Sotaque de Matraca ou da Ilha tem forte influência indígena e recebe este nome por ter o ritmo marcado pelas matracas, um tipo de instrumento de madeira, e por ser original da ilha de São Luís [8]. Já o Sotaque de Zabumba ou Guimarães, cuja influência africana é predominante, é típico do município de Guimarães e marcado pelo uso da zabumba, instrumento semelhante a um tambor de grandes dimensões [8]. O Sotaque Costa de Mão ou Cururupu tem origem no município de Cururupu e seu símbolo é o pandeiro tocado pelos músicos com as costas das mãos [8]. O Sotaque de Orquestra, típico de Rio Munim, mais especificamente dos municípios de Rosário e Axixá, possui maior influência europeia com instrumentos de corda e sopro [8]. Por fim, o Sotaque da Baixada deriva das regiões da Baixada ocidental maranhense, principalmente do município de Viana, e é marcado por um ritmo mais lento e suave com pandeiros, maracás, caixas e matracas [8].
Para além dos músicos, é imprescindível, no caso da vertente maranhense da festa, alguns personagens como: o boi, Pai Francisco, mãe Catirina, o dono da fazenda, os vaqueiros e as índias [1]. À eles, somam-se, dependendo do sotaque, o rajado, vaqueiro de fita, vaqueiro de pena e o Cazumba, personagem cômico e amedrontador característico do sotaque da Baixada.
Os sotaques supracitados também são encontrados em outros estados, fruto das migrações maranhenses, como é o caso do Grupo Cupuaçu, turma de Bumba-meu-boi localizada na cidade de São Paulo. O grupo foi fundado em 1986, pelo músico, compositor e mestre de capoeira, José Antônio Pires de Carvalho, popularmente conhecido como Mestre Tião Carvalho, natural do município de Cururupu [9]. Além de apresentar o auto [10] do Bumba-meu-boi em diversos espaços culturais da capital, eles também realizam anualmente, no mês de junho, a festa do Bumba-meu-boi na Vila Pirajussara, conhecida como Morro do Querosene, localizada no bairro do Butantã, na Zona Oeste da capital paulista. O evento, além de rememorar uma expressão fundamental da cultura maranhense, ilustra o esforço do grupo artístico para a manutenção desse patrimônio cultural imaterial diante do cenário das migrações internas. A análise do couro [11] do boi do Grupo Cupuaçu permite ainda a observação de como o contexto migratório é refletido nas indumentárias, uma vez que é comum que esta peça contenha bordados que remetem à fauna, à flora, à religiosidade e aos pontos turísticos das cidades maranhenses, sendo que, no caso do grupo paulistano, esses elementos somam-se a marcos da cidade de São Paulo, como a Catedral da Sé, o Memorial da Resistência, o MASP (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand) e o metrô de São Paulo.
Em diálogo com a temática das expressões culturais e das migrações, o Museu da Imigração do Estado de São Paulo inaugurará, no mês de julho, a exposição temporária Reatar, cujo tema central é a relação entre as migrações e o universo têxtil. Na mostra, a conexão entre as comunidades e seus territórios é abordada por meio de indumentárias de diferentes grupos culturais, assim como o Grupo Cupuaçu.
Agradeço ao Grupo Cupuaçu e ao Mestre Tião por ter nos recebido na sede do grupo e compartilhado conosco a história do coletivo e um pouco do seu vasto conhecimento acerca do Bumba-meu-boi.
Foto de capa: Apresentação do Grupo Cupuaçu em frente à Catedral da Sé, São Paulo, SP, 2025 (Raquel Catão).
Referências bibliográficas e notas
[1] Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) (org.). Complexo Cultural do Bumba-meu-boi do Maranhão. Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. São Luís: IPHAN, 2011. Disponível em: https://bcr.iphan.gov.br/bens-culturais/complexo-cultural-do-bumba-meu-boi-do-maranhao/?perpage=12&order=ASC&orderby=date&pos=4&source_list=term&ref=%2Flivros-de-registro%2Flivro-das-celebracoes%2F%3Fperpage%3D12%26view_mode%3Dmasonry%26paged%3D1%26order%3DASC%26orderby%3Ddate%26fetch_only%3Dthumbnail%252Ccreation_date%252Ctitle%252Cdescription%26fetch_only_meta%3D. Acesso em 10 de junho de 2026.
[2] CAVALCANTI, Maria Laura Viveiro de Castro. O boi em dois tempos. O Bumba-meu-boi em Mário de Andrade e o Bumbá de Parintins na Amazônia hoje. Revista Todas as Artes. Rio de Janeiro, v.1, n.1, p.112-129, 2018. Disponível em: https://ojs.letras.up.pt/index.php/taa/article/view/5042. Acesso em 18 de junho de 2026.
[3] MARTINS, Carolina C. de Souza. Política e cultura nas histórias do Bumba-meu-boi: São Luís do Maranhão – século XX. 2015. Dissertação (Mestrado em História Social) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2015. Disponível em: https://www.historia.uff.br/stricto/td/1880.pdf. Acesso em 15 de junho de 2026.
[4] SOUZA, Danielle. As poéticas caminhantes do Bumba Meu Boi maranhense: a cena brincante na festa de São Marçal. Revista Brasileira de Estudos da Presença, Porto Alegre, v. 13, n. 4, e129727, 2023. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/2237-2660129727vs01. Acesso em 04 de junho de 2026.
[5] Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) (org.). Bem Cultural Imaterial. Site do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico. iphan.gov.br, s.d. Disponível em: https://bcr.iphan.gov.br/bem-cultural-imaterial/. Acesso em 04 de junho de 2026.
[6] BRASIL. Governo Brasileiro. Patrimônio Imaterial. gov.br, s.d. Disponível em: https://www.gov.br/iphan/pt-br/patrimonio-cultural/patrimonio-imaterial. Acesso em 04 de junho de 2026.
[7] SANT’ANNA, Márcia. A face imaterial do patrimônio cultural: os novos instrumentos de reconhecimento e valorização. In: Memória e Patrimônio: ensaios contemporâneos, Rio de Janeiro: Lamparina Editora, 2003.
[8] FURLANETTO, Beatriz Helena. O Bumba-meu-boi do Maranhão: território de encontros e representações sociais. RAEGA - O Espaço Geográfico Em Análise. Paraná, v. 20, 2010. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/raega/article/view/20615. Acesso em 8 de junho de 2026.
[9] Informações obtidas a partir da entrevista realizada com o Mestre Tião Carvalho por Laura Sousa e Cristina de Branco, em nome do Museu da Imigração do Estado de São Paulo, em 08 de maio de 2026.
[10] O auto do Bumba-meu-boi é uma espécie de encenação que mescla teatro, dança e música.
[11] O couro do boi consiste em um tipo de máscara de corpo todo, em formato do boi, a qual ganha vida ao ser utilizada por um brincante, chamado de “miolo”.