Blog
Compartilhe
As emoções dum migrante
Caynã Pankararu*
Neste planeta, tudo se move, aquilo que está fixado no solo ou incrustado no núcleo tende a mover-se junto com a rotação e a translação pela galáxia. Aqui, tudo se move, os rios, animais e até as plantas que mesmo fincadas no solo conseguem dispersar suas sementes em vastos continentes. Para nós a vida começou no território africano e desde então nos movemos. É um caminhar de diferentes grupos humanos, em diferentes momentos na história essas pessoas andaram por grandes desertos, pelo Ártico, no Estreito de Bering, nas cordilheiras andinas, nas matas amazônicas e em grande parte do território brasileiro muitos encontraram moradia, os pré- históricos habitantes desse território são de antes de escrevermos história, por isso o nome “pré-históricos”. É fácil encontrar seus vestígios, aquilo que foi mexido e deixado por eles, objetos que usavam durante suas vidas, mas é difícil saber exatamente quem foram.
Olhem nas Furnas do Estrago e as grutas do Brejo da Madre de Deus, lá os cientistas apontaram encontrar materiais nunca tocados pela colonização, únicos, e possíveis evidências das moradas dos que já se encantaram. Alguns desses materiais estão disponíveis para observação na internet, pesquisem sobre o sítio arqueológico de petroglifos de Mara Rosa em Goiás, em meu coração, é de lá que os antepassados dos Pankararu vieram, ou foram. A ciência humana dificilmente é instigada a investigar o nosso passado e, por isso, convido quem lê essas linhas para observar de perto as pessoas que caminham.
Sobre aquelas pedras, não se sabe muito, pois o cientista mais recente a estudá-las não teve como trabalhar com astrônomos, arqueólogos e etnobotânicos, como consta em sua pesquisa publicada. Então, como é que eu sei que esse local é de antepassados Pankararu? Acontece, que eu não sei, eu só tenho uma coisa para me basear, eu sinto, dentro de mim onde fica o “sentir”, sinto que era ali um local Pankararu. É no olhar para elas, observar o local ao redor e no meu refletir, que eu sinto emoções fortes sobre aquele lugar.
Só por meio das ciências, talvez eu conseguiria provar o que sinto. O cientista responsável supõe que essas pedras possuem mais de oito mil anos de idade, na superfície das pedras não existe traço genético ou material orgânico para rastrear até os Pankararu, mas os traços profundos desenhados na rocha são chamados por nós de Praiá, seres encantados para os Pankararu, para vê-los basta ir onde os Pankararu estão, é junto aos rituais e bênçãos que são avistados seres feitos de fibra de Caroá —uma planta—, alguns podem chegar a meio metro e outros até mais de dois, cantam e dançam para proteger os Pankararu em seus territórios.
A caminhada dos Pankararu é longa, repleta de mistérios e para além das pedras que precisam ter uma oportunidade de serem aprofundadas, existe muita história que já foi escrita por diferentes pessoas em seus tempos. Em 1802, durante a colonização, o Frei Vital de Frescarolo, ao escrever sobre nós, apontou ter nos encontrado na base das serras e em ilhas pelo rio São Francisco[1]. No decorrer do Império Português, os congregados de São Felipe Nery nos colocaram em aldeamentos no que hoje são Tacaratu, Paraíba, Bahia e Pernambuco [2]. Nesse período, é possível identificar cartas de grupos indígenas pedindo a ajuda do imperador, pois estavam sendo caçados pelos colonos. Os tratados reais então dispuseram de uma sesmaria.
Sendo expulsos de um canto para outro, por termos corrido para nos esconder nas serras e na mata, tornou-se difícil levar algo conosco, imagino que dê pra levar comida, alguns acessórios e fibras de roupa. Mas não dá para levar a cultura imaterial da mesma forma, o que puder nas mãos e nas costas, mas ao subir e descer algumas coisas vão se perdendo, e a nossa cultura imaterial é a que mais sofre: “o Praiá precisará de tempo para ser levantado, pois a planta que usamos ficou no território tomado, só o que trouxemos não foi suficiente, precisamos cultivar, ficarmos fortes para podermos voltar a cultuar” (Kukura, 2024, não publicada).
Recursos como caju, açúcar, cana, gado, ouro, pessoas e o próprio rio sempre foram mais importantes para os que governavam o território nordestino, por isso, onde quer que os Pankararu estivessem, caso possuíssem minerais ou qualquer tipo de fertilidade, eram expulsos pelos colonos e remanejados para que as riquezas pudessem ser extraídas. Digo isso para que sintam empatia, vou do passado ao presente em instantes para tentar lhes esclarecer o que for possível sobre como nos sentimos. Muitos de nós, que precisam se mover para sobreviver, acabaram perdendo a noção do nome da bisavó, de onde o tataravô veio. As urgências do presente nos distraem, mas na calmaria de olhar para si enquanto um ser que precisou de outro para estar vivo, é aí que nos deparamos com nossas próprias perguntas: de onde eu vim? Ela tira comida da boca dela para por na minha? De onde ela veio? Tem alguém mais velho, ainda vivo, que possa me responder?
Então, é provável que você, quem aqui lê, seja um dos que fazem essa pergunta, talvez lá no fundo do seu ser, uma única memória de sua avó, mãe ou pai dizendo sobre suas origens seja o suficiente para ter orgulho de quem se é. Pode ser que você venha de famílias italianas, libanesas, africanas ou de famílias nativas brasileiras, aqui todos nós tivemos que sobreviver e todos perdemos alguma coisa ou alguém, pois aprendemos a respeitar a cultura imaterial muito tarde. Assim, já se foi um canto que não está gravado, a fotografia que corroeu no retrato e as noções históricas apagadas que fazem buracos em nossas caminhadas. A peculiaridade é aquilo que é único de um lugar e de nenhum outro, o detalhe que só um de todos os filhos pode possuir, algo que só existe nesse tempo. O peculiar das nossas perdas, é que alguém teve a oportunidade de encontrar e satisfazer suas pitangas choradas, esse alguém foi o cientista ao redescobrir os petroglifos de Mara Rosa (Vivaldo Silva/Maciel Pereira), a pesquisadora que organizou o maior acervo de São Paulo (Oneyda Alvarenga), e entre outras pessoas que nos deram a oportunidade de ouvir e ver aqueles que já se foram são de grande admiração, pois deram a chance de recordarmos ao terem levado e guardado um Praiá.
Zona Sul, Leste, Norte ou Oeste, em meio aos espaços urbanos, nossas sociedades são diversas e repletas de centenas de milhares de peculiaridades em constante transformação. Éramos terra livre, Primeiro e Segundo Império, velhas e novas repúblicas, até encontrarmos essa forma (conjuntura) atual de ser. Algumas cidades foram construídas no interior até se tornarem metrópoles e capitais de países continentais. Outras possuem minerais e monumentos naturais de extrema importância. Muitas abrigam animais e plantas que não são encontrados em nenhum outro lugar do mundo. Sua grandeza é tamanha que se sustenta justamente em suas peculiaridades. Na capital paulista, dentro do Itaú Cultural, existe um livro raro feito de uma coleção antiga sobre o Brasil Holandês que perdurou de 1630 a 1654. Homens da companhia holandesa estudaram, desenharam e captaram as posições das estrelas no Nordeste brasileiro, subiram o rio São Francisco e em seus livros há de existir alguma peculiaridade nossa que foi perdida há mais de trezentos anos, noções que pertencem a todos nós.
Nos anos seguintes a 1935, deram início aos trâmites que iniciaram as Missões Folclóricas, homens de origens européia novamente caminhavam sobre essas terras para colher os objetos e materiais mais diversos que compunham as culturas brasileiras, foram para o Sul e Norte (antigo Nordeste), com câmeras e gravadores, recolheram adereços e algo muito importante para os Pankararu veio com eles [3], para além de instrumentos, cantos gravados e momentos registrados em fotografias, eles também trouxeram para São Paulo um roupão de fibra trançada de um Praiá, hoje para nós, este foi o primeiro Pankararu a vir para o recém território paulista [4]. Mas é fato histórico que, em 1910, o antigo Serviço de Proteção ao Índio (SPI) destinava homens indígenas para a construção cívil e o militarismo, e as mulheres indígenas para trabalho doméstico. Na época, o SPI possuía três postos militares em Pernambuco.
Sendo assim, em São Paulo, quem levanta a cidade é o migrante, seja ele italiano ou nordestino, a cidade é feita da mesma matéria que compõe a mata, no chão da selva e dos pés que caminham. E, na natureza, aprendemos que sempre há algo maior do que nós: para o vulcão, é o mar, o oceano, a atmosfera. Maior do que uma cidade, é sua população. Algo maior que os migrantes, somente as emoções que eles carregam no peito. Quando criança caminhava com meu avô migrante e ele me apontou um imenso prédio branco, com orgulho disse que ele e outras pessoas haviam erguido o edifício, seus olhos observando os portões e muros de ferro, ao subir o olhar para o prédio, se encheram d’água e pareciam lembrar do peso que a construção do prédio tinha sob ele.
Nesse texto, interessa-nos falar da Cidade de São Paulo, para situar um grupo específico: os migrantes e os que dificultam a migração. Ainda que eu não consiga contar todos, vejo neles talvez a maior população humana. Se você não é o migrante, essa experiência provavelmente pertence ao seu pai ou à sua mãe, ao seu avô ou à sua avó, e assim sucessivamente, antes e depois de você. Mesmo que não seja hoje, talvez você se torne um migrante amanhã e venha a sentir o que seus antepassados sentiram quando não puderam mais permanecer no lugar onde viveram e compartilharam momentos importantes de suas vidas. Muitos migraram por conta da seca, da violência sofrida, por estarem procurando tratamento ou educação, e principalmente por quererem formar um lar em algum lugar.
As antigas pessoas migrantes construíram o bem viver do qual desfrutamos hoje, plantaram goiabas daqui até o México. Parte de seus trabalhos consistia em bater o pé no chão em defesa de direitos trabalhistas e civis, do acesso à educação e à alfabetização, e da possibilidade de que seus descendentes pudessem caminhar cada vez mais leve, até alcançarem um ponto de descanso. Faço um apelo para que estudemos as emoções dos migrantes. Em tudo que pude ler sobre os migrantes, pouco pude aprender, pois existem muitos apagões em suas histórias. Talvez alguns ignorem essa dimensão, mas não por muito tempo. Houve um tempo em que uma humanidade positivista, em nome da razão, desconsiderava as produções das culturas nativas e as emoções humanas por não poder tocá-las ou quantificá-las. Com o passar dos anos, contudo, o patrimônio imaterial brasileiro tornou-se tão importante que o intangível conquistou palco e plateia.
Mas não são apenas os estudiosos que precisam lembrar e dar espaço e oportunidade a esses sentimentos. O próprio migrante pode ser um daqueles que esquecem das suas próprias emoções, pois sua trajetória é cercada por inúmeros acontecimentos que fazem surgir e se acumular em novas emoções a cada cidade, em cada morada e ao longo de todo o percurso. Antes de migrar, há um borbulhar no estômago. Muitos conhecem essa sensação, frequentemente despertada pelo impacto da notícia de que o mundo em que viviam está prestes a mudar. A saudade faz com que os olhos registrem cada detalhe da antiga vida: o lugar onde dormiram, onde cresceram e onde compartilharam momentos significativos. Se essas experiências emocionais fazem parte da vida do migrante, então merecem o rigor científico dos estudos. Os pesquisadores precisam incluir em suas investigações os sentimentos que acompanham as sensações do migrante, sejam elas tristeza ao partir ou felicidade ao chegar, o sentimento de pertencimento é a fagulha inicial para a preservação do material, sentindo o quanto de importância existe em uma “peça”, conseguimos mensurar que é necessário um cuidado maior, um recipiente de vidro para que o tempo consuma o artefato cada vez menos, assim um número maior poderá ter acesso.
E no momento da construção de uma nova moradia, o migrante está sujeito às mais diversas circunstâncias, muitas delas distintas da antiga vida. Pode ter realizado essa jornada sem a presença da mãe e, agora, precisará ponderar sobre tudo o que lhe foi ensinado até a partida. Ou, em situação ainda mais difícil, pode ter deixado os filhos para trás, convivendo com a preocupação e a ansiedade de precisar trabalhar reduzindo ao máximo os próprios custos, para que uma quantidade possível de recursos seja enviada àqueles que permaneceram. Para o migrante Pankararu, é possível observar um movimento similar em cada grupo (Pernambuco, Bahia, Alagoas, São Paulo e Guarulhos), após conseguirem construir a moradia, comprometem-se em grupos a levantar uma morada para os Praiá, para que suas fibras fiquem seguras em um ambiente de zelo. Nesse momento, cada membro da família com um saber tradicional traz seu fumo, cerâmica ou instrumentos para garantir melhor conforto ao zelar os Praiá. Por sua vez, quando os Praiá dançam, as pessoas se encontram.
Seja como for, muitos migram mantendo as tradições de retorno para suas antigas moradas de descanso, mesmo que seja ruim para economizar, a viagem de retorno pode restaurar limites de fadiga e dores causadas por muito tempo. Há inúmeras questões que os cientistas podem investigar, mas somente vocês, migrantes, poderão responder. É possível migrar sem saúde? Partir sem medo? Permanecer em um lugar mesmo quando as emoções insistem em voltar? Entre os migrantes indígenas, existem aqueles que se perdem, literalmente, por não serem letrados, vão encontrando outras formas de sobreviver, caso migrem sozinhos e permaneçam, não haverá povo para ensinar os mais novos, cuidar dos mais velhos ou cultuar as tradições.
Há necessidade de recorrer à razão para acalmar emoções intensas ou voltar ao ponto de partida é suficiente? Contudo, a razão, sozinha, não basta. Ela não disputa espaço com os demais sentimentos, pois cada emoção possui seu próprio lugar no corpo e na experiência do migrante. Aos oito anos, vi a desapropriação de parte da minha comunidade, quando tinha dez, um incêndio criminoso havia devastado metade da “Favela da Mandioca” e então percebi que aquele mundo Pankararu estava cada vez mais longe, pois é difícil! Cada vez que conseguimos um pouco para nos manter, situações nos desestabilizam nos impedindo de nos mover para progredir ou retornar.
Até os quatorze anos, graças às leis de moradia popular e proteção da propriedade social, uma moradia popular foi construída para centenas de algumas famílias que haviam perdido tudo, outras centenas ainda aguardam ansiosas uma moradia própria, algumas dezenas retornaram aos locais de partida, muitos são agradecidos aos migrantes que pisaram os pés para que hoje o amparo legal pudesse abrigá-los. Hoje sinto a responsabilidade de zelar por aqueles que migram, tornar suas vidas mais harmoniosas, defender seus interesses políticos e torcer para que encontrem um lar.
Aos dez anos, eu me desfalecia após perder tudo que tínhamos juntado nessas pequenas rotas de migração. Tudo que tínhamos cabia em menos de 10 metros quadrados: eram nossas raras fotografias de família, os vestidos com furos de brasas do cachimbo de minha tataravó, tufos de cabelo e cordões umbilicais, nossas economias trocadas por móveis e aparelhos que viraram cinzas ou derreteram. As paredes daquela casa hoje me lembram um castelo de madeira, perder aquilo em um momento de formação, por menor e sem valor que fosse para alguém, foi grande o suficiente para me emocionar até hoje. Foi quando eu perdi minha peculiaridade, minha casa e tive que partir, quando me tornei um migrante.
Imagem: Geômetra (Caynã Pankararu, São Paulo, 2026)
Referências
[1] Era esperado que gradualmente os indígenas fossem assimilados, conforme afirma Lacerda: "Isso fica Claro na decisão número 92 de 21 de outubro de 1850, na qual o ministério do Império "manda incorporar aos próprios nacionais as terras dos índios, que já não vivem aldeados, mas sim, dispersos e confundidos na massa da população civilizada; e dá providências sobre as que se acham ocupadas". (In SANTOS, Ivan Pereira Rodrigues dos. O movimento indígena e a Assembleia Nacional Constituinte. Jundiaí: Paco Editorial, 2024, p. 35).
[2] "O Código Cívil de 1916 segue a mesma linha do SPI (Serviço de Proteção ao Índio) quando decreta o status de incapaz dos silvícolas". (Apud Brasil, Lei n° 3.071, de Janeiro de 1916. Código Cívil dos Estados Unidos do Brasil In SANTOS, Ivan Pereira Rodrigues dos. O movimento indígena e a Assembleia Nacional Constituinte. Jundiaí: Paco Editorial, 2024, p. 38). É de se imaginar que o poder do voto eleitoral nas mãos indígenas de alguma forma ajudaria, mas esse poder nunca foi respeitado: "não sendo obrigados a serviço militar não poderiam ser eleitores" ... " (idem). A Constituição de 1934, além de classificar os grupos indígenas, previa a incorporação dos silvícolas à comunhão Nacional em seu artigo 5°. Brasília, DF checado por Ivan dos Santos (SANTOS, Ivan Pereira Rodrigues dos. “O movimento indígena e a Assembleia Nacional Constituinte”. Jundiaí: Paco Editorial, 2024, pág. 39).
[3] TONI, Flávia Camargo. A missão de pesquisas folclóricas: do Departamento de Cultura. São Paulo: Centro Cultural São Paulo, [1985]. 51 p.
[4] PINTO, Estevão. “Alguns aspectos da cultura artística dos pancarùs de Tacaratú”. Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Rio de Janeiro, n. 2, 1938.
Caynã Pankararu*
Também conhecido como Kukura Caynã, tornou-se migrante em 2010, é uma pessoa trans não-binária, contista, ilustra e escreve de forma amadora. É nativa do povo Pankararu do Nordeste brasileiro, poetisa e futura historiadora.
A série “Quem tem medo das cores de São Paulo? - Sobre a xenofobia racializada contra migrantes no contexto paulistano” é uma iniciativa do Museu da Imigração para divulgação de reflexões sobre a discriminação xenofóbica racial. Nosso ponto de partida é de que essa forma de violência impacta muitas das vivências migrantes não-brancas na cidade de São Paulo, nos dias de hoje e num passado recente.
Os textos publicados na série temática não traduzem necessariamente a opinião do Museu da Imigração do Estado de São Paulo. A disponibilização de textos autorais faz parte do nosso comprometimento com a abertura ao debate e a construção de diálogos referentes ao fenômeno migratório na contemporaneidade.