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Tata Inti brilha para todos: saudações andinas ao Sol em São Paulo
Cristina de Branco - Analista de Pesquisa
No final de tarde de cada 20 de junho, o Sol vai se despedindo e a noite mais longa do ano se firma no Hemisfério Sul. Para muitos que vivem no Sul do mundo, o solstício de inverno assinala apenas o início da época mais fria do ano gregoriano e, para outros, é o marco do início de um novo ciclo de vida. As festividades do solstício de inverno no Hemisfério Sul, como o We Tripantu mapuche e o Arapyaú mbyá guarani, e do solstício de verão no Hemisfério Norte, como o Geshi, no Japão, e a celebração junto ao Stonehenge, na Inglaterra, coincidem nessas datas determinadas pelo fenômeno astronômico que marca a maior ou menor distância do Sol, isto é, as noites mais longas no Sul e os dias mais longos no Norte. O termo “solstício”, solstitium, do latim “Sol parado”, nomeia genericamente esse período do ano no qual o Sol fica mais tempo no céu do Norte, propiciando entardeceres a partir das nove da “noite”. Ou seja, a palavra “solstício” vem de quem olha e vive o céu a partir do Hemisfério Norte. Tal como a famosa festa junina brasileira que vem, em parte, da herança da colonização portuguesa católica, também vinda do Norte. Afinal o processo colonial levou a que festividades não católicas, ditas “pagãs”, seja as de junho, como de outros períodos do ano, fossem apropriadas e transformadas em festas de santos católicos.
Ainda assim, por mais que a maioria das sociedades ocidentais sigam a temporalidade católica, proclamada por Papa Gregório XIII, em 1582, em Roma - isto é, a cronologia gregoriana (ano de 365 dias, 12 meses e anos bissextos) imposta na América Latina e Caribe por meio da colonização ibérica católica - já existiam e seguem existindo outros entendimentos e vivências de tempo por todo o continente, inclusive no Brasil, mais especificamente na região metropolitana de São Paulo. Na Ponte da Vila Guilherme, na Praça Kantuta, junto às quadras de futebol na Vila Maria, e em outros locais da capital e área metropolitana de São Paulo, enquanto o Sol vai anunciando o fim do dia 20 de junho, centenas de pessoas andinas de diversas procedências regionais e vínculos étnicos começam a se reunir para festejar a noite mais longa do ano e receber, juntos, os primeiros raios de Sol do início do novo ciclo solar. Pela organização de comunidades aymaras, quechuas e kichwas otavalo, vindas dos Andes atualmente boliviano, peruano e equatoriano, são realizadas diferentes celebrações ao Sol: Inti Raymi (em quechua, Festa do Sol*), Machaq Mara (em aymara, Ano Novo), Willka Kuti (em aymara, Retorno do Sol), Ano Novo Andino, entre outras variações.
Há mais de quinze anos, comunidades kichwas otavalo residentes na cidade de São Paulo e cidades vizinhas, festejam o Inti Raymi de forma semelhante à celebração na sua região de referência [1], próxima ao vulcão de Imbabura, na serra andina ao norte do atual Equador, em pleno Chinchaysuyu, quadrante norte do Tawantinsuyu (território pluriétnico inca) coincidente com o norte do Peru, o Equador e o sul da Colômbia. Durante parte do mês de junho, essas famílias se reúnem para agradecer ao Tata Inti e a Pachamama (normalmente traduzidos de forma simplificada como “Pai Sol” e “Mãe Terra”) em tinkuys, encontros comunitários onde partilham suas comidas tradicionais, como o cuy asado e o helado de paila, e suas músicas sazonais, como o Sanjuanito, ao som do charango, da harmônica, do violino, entre outros instrumentos. Muitas vezes intercalando a festividade com campeonatos de futebol masculinos e femininos, as comunidades kichwas otavalo se encontram dentro e junto de quadras de futebol na zona leste e norte da capital paulista, em multidões organizadas em famílias e vizinhos que constroem e oferecem à coletividade seus castillos (oferendas em estrutura de bambu trançado com frutas e pães amarrados) [2].
Por sua vez, pessoas aymaras e quechuas bolivianas também se reúnem pela cidade especificamente na noite de 20 para 21 de junho, na Ponte da Vila Guilherme, na Praça Kantuta e, pela primeira vez neste ano, no Largo da Penha, entre outros locais. Ainda que famílias andinas residentes na capital paulista e cidades vizinhas já festejassem o Ano Novo Andino desde o final da década de noventa, de forma íntima, em seus quintais e lajes, foi em junho de 2014, pela mobilização de alguns referentes comunitários andinos, que o festejo se tornou público e mais amplamente divulgado, naquele ano realizado no Memorial da América Latina [3]. A partir de 2019, a festividade foi o motivo de criação do Centro Cultural Andino Amazônico, formado pela articulação entre conjuntos de música e dança autóctone altiplânica, como os Italaque Nuevo Amanecer, os Kollasuyu Maya, os Huaycheños de Corazón, os Waly Wayras e as Lakitas Sinchi Warmis, atuante até aos dias de hoje, com outra formação interna e com mais iniciativas em realização. Simultaneamente, também setores das comunidades aymara e quechua boliviana seguiram festejando seu Ano Novo Andino na Ponte Vila Guilherme. Estes festejos em geral parecem seguir a referência festiva de Tiwanaku (localizado no atual Departamento de La Paz, Bolívia), marco memorial e arqueológico do Altiplano andino e epicentro espiritual do Kollasuyu, quadrante sul do Tawantinsuyu de grande presença demográfica aymara e também quechua, coincidente com todo o ocidente boliviano e ainda com o sul peruano e os nortes chileno e argentino.

Conforme é relembrado pelos historiadores peruanos Juan José Vega e Luis Guzmán Palomino, o cronista peruano Garcilaso de la Vega, descendente de espanhóis e incas, em 1609, ao escrever nos seus Comentários Reales de los Incas sobre o Inti Raymi festejado na região das serras andinas do atual Peru, afirmou que tempos antes
faziam essa festa ao Sol reconhecendo-o e venerando-o como o deus supremo, único e universal, que com sua luz e poder criou e sustentou todas as coisas na Terra. E em reconhecimento a ele como o pai natural do primeiro Inca Manco Cápac, e da Coya Mama Ocllo Huaco, e de seus filhos e descendentes, enviados à terra para o benefício universal das pessoas. Por essas razões, como eles dizem, esta festa era soleníssima [4] **
São muitos os relatos de cronistas do século XVI que mencionam o Inti Raymi, como também são muitas as evidências arqueológicas de que o Sol era venerado nos Andes, por exemplo, no Ollantaytambo (atual Peru), construído no século XV, e em Tiwanaku, elevado entre os séculos V e IX (atual Bolívia). Entretanto, a partir de memórias mais recentes, o historiador aymara boliviano Germán Choquehuanca, também conhecido como Inka Waskar Chukiwanka, recorda que
Nossos avós Qolla costumavam festejar o Inti Raymi com grandes festas, que foram proibidas pelos espanhóis, que nos impuseram à força o ano novo em 1º de janeiro. No entanto, a festa do Inti Raymi se manteve clandestinamente, disfarçada nas celebrações de Corpus Christi, São João, São Pedro e outras. No início do século XX, os liberais censuraram o Inti Raymi [5]
Nesse mesmo sentido, mas a partir do Chinchaysuyu, o acadêmico kichwa equatoriano Luis Alberto Tuaza relembra que
Até a década de noventa do século passado, esta festividade era celebrada anonimamente. Embora seja verdade que as populações indígenas do Equador mantivessem a tradição de celebrar as festas, principalmente em junho, quando iam para as montanhas, dançavam e compartilhavam comida, essas festividades não eram conhecidas como Inti Raymi. Esta festa indígena havia sido invisibilizada pela Conquista e pela imposição das práticas religiosas da Igreja Católica, que em junho celebra as festas dos apóstolos Pedro e Paulo, São João e Corpus Christi [6]
Por mais que a festa de homenagem e conexão com o Sol esteja patente em várias camadas memoriais, desde a lembrança longínqua indígena à evidência arqueológica, essa, como outras festividades indígenas, foram brutalmente combatidas pela colonização espanhola que assolou a região por mais de trezentos anos e pela replicação e readaptação republicana de suas estratégias de repressão, silenciamento e invisibilidade nos séculos seguintes.
No caso do Kollasuyu boliviano, o escritor aymara boliviano Carlos Macusaya e a ensaísta andina boliviana Sandra Cáceres Copa, entre outros, relembram que o Ano Novo Andino tal como figura atualmente surgiu como “uma celebração que é parte da emergência do indianismo e do katarismo” [7], isto é, dos movimentos indígenas andinos bolivianos, especialmente do Movimiento Universitario Julián Apaza (MUJA). Como explica Copa,
A espera pelo amanhecer do primeiro dia do Ano Novo Aymara, 21 de junho, nas ruínas de Tiwanaku, com o waxt'a ou queima de oferendas, começou no início da década de 1980, iniciativa de um grupo de estudantes universitários de origem aymara (identificados com movimentos de resgate étnico cultural, como o katarismo e o indianismo), que apelaram por uma continuidade histórica com seu passado ancestral para reforçar sua identidade como originários (...) O ano novo aymara foi, portanto, uma manifestação do movimento de libertação aymara, que girava em torno do tema do kuti (retorno às raízes), liderado por migrantes aymaras em busca de uma religião para transcender a opressão e marcar sua presença como cultura e nação [8]
A criação dessa festividade no formato conhecido atualmente, em contexto boliviano, é justamente atribuída a Germán Choquehuanca e outros estudantes do MUJA, que no dia 21 de junho de 1979, se encontraram nas ruínas de Tiwanaku para receber os primeiros raios de Sol, em busca de recriar outro ciclo ontológico e histórico-político para si mesmos. Como afirma Macusaya em entrevista recente ao coletivo Qhapaj Ñan e à Alpaca Producciones, “o ano novo aymara para mim é esse esforço para formar um espaço de afirmação identitária em um contexto de racismo (...) o significado do ano novo aymara é um sentido político” [9]. A “invenção”, como diria o historiador aymara boliviano Pedro Portugal [10], ou o “reestabelecimento”, pelas palavras de Germán Choquehuanca [5], do Inti Raymi ou do Ano Novo Andino, “é um exemplo, como outros, de como um povo mostra a sua vitalidade não na forma como repete sua cultura herdada do passado, mas na capacidade de se refazer, de reinterpretar e ressignificar sua cultura” [7].

De qualquer modo, pelas lembranças dos estudantes do MUJA, na época, os originários de Tiwanaku não reconheceram a festividade, nem a receberam bem. Foi apenas na década de 90 que a festa do Ano Novo Andino, tal como vivida hoje em dia, foi aceita pelos locais e até protagonizada por vários deles (como é o caso de Tata Max Chura, amawt’a aymara boliviano, natural e residente de Tiwanaku, que fez as cerimônias do Ano Novo Andino em São Paulo, em 2025). Segundo Sandra Copa, “a partir daí, então, se quis dar a essa festividade um significado nacional boliviano” [8]. Em 2005, sob a presidência de Carlos Mesa, é promulgada a Lei declaratória do Ano Novo Aymara enquanto Patrimônio Intangível, Histórico e Cultural da Bolívia. Poucos anos depois, em governo presidencial do Movimento ao Socialismo (MAS), liderado pelo aymara Evo Morales Ayma, o Ano Novo Aymara, ainda que com suas particularidades rituais referenciadas especificamente nas cerimônias criadas em Tiwanaku, é reconhecido enquanto Ano Novo Andino Amazónico y del Chaco, numa estratégia direta de projeção da plurinacionalidade boliviana, recém legislada pela nova Constituinte de 2009.
Entretanto, no Equador, se dá um processo semelhante. Luis Alberto Tuaza relata que é nos anos 90 do século passado que o Inti Raymi começa a ser recuperado pela conjunção de dois fatores “por um lado, a influência da nova abordagem da evangelização da Igreja Católica, por outro lado, a luta dos povos indígenas em relação à identidade e à espiritualidade” [6]. Enquanto a Igreja vivia uma mudança interna na reconsideração pelas festividades originárias locais, no sentido de não mais insistir no secular sincretismo subordinante, mas sim de buscar a sua valorização enquanto prática indígena, também os movimentos indígenas equatorianos se fortaleciam na retomada de suas práticas, festas e discursos. De forma parecida ao caso boliviano (ainda que com diferenças nos detalhes dos processos histórico-políticos regionais), em 2008, o Equador também reviu sua Constituição incorporando, entre muitos outros elementos, o conceito político de plurinacionalidade como dispositivo estruturante à imaginação e ao exercício de um novo paradigma identitário e regulatório para o país. Nesse contexto, como assinala Tuaza, “ao contrário da bandeira, do brasão e do hino nacional como símbolos da equatorianidade e de um Estado monocultural, o Inti Raymi possibilita enxergar um Equador plurinacional, diverso, composto por mais de 16 povos e nacionalidades” [6]. No entanto, o mesmo autor indígena salienta que a promoção estatal do Inti Raymi enquanto projeção da plurinacionalidade não é suficiente para a construção concreta de um Estado plurinacional. Afinal,
não se pode falar de um Estado Plurinacional sem questionar a persistência do racismo, a exclusão dos povos indígenas da tomada de decisões políticas, o desrespeito ao direito à educação intercultural e à aplicação da justiça indígena, o escasso trabalho para fortalecer os territórios indígenas, a ausência de políticas públicas sérias para revitalizar as línguas indígenas e processar as demandas de salvaguarda do patrimônio natural apresentadas por organizações indígenas e camponesas; sem lhes garantir efetivamente o direito à água e à gestão dos recursos hídricos, sem promover a participação efetiva dos indígenas no aparato produtivo e na busca por alguma equidade econômica. [6]
A incorporação estatal do Inti Raymi, isolada de outras iniciativas estruturantes que venham a caminhar pela efetivação dessa almejada plurinacionalidade, caracterizaria o Estado equatoriano não como plurinacional, mas sim como um Estado neoliberal multiculturalista no qual interessa um retrato de diversidade cultural que possa ser cúmplice de modelos sócio econômicos opostos à existência indígena. Uma crítica parecida é feita por pensadores e autores indígenas andinos bolivianos a partir do seu debate sobre plurinacionalidade na Bolívia. Como demarca o historiador e autor aymara Pedro Portugal, em relação ao contexto boliviano, “ambos - tanto os feitos dos jovens indianistas quanto o atual Ano Novo Plurinacional - são ‘tradições inventadas’. Contudo, têm uma diferença fundamental: uma poderia ter sido um prelúdio para uma nova realidade social e política; a outra, ao contrário, é um testemunho do fiasco da construção plurinacional” [10].

Estes debates e imaginações sobre plurinacionalidades possíveis ou inviáveis, tal como a festa do Ano Novo Andino, migram com as pessoas indígenas andinas. Ao corporificarem seus tempos-espaços andinos a cada festa retomada, ao seguirem suas celebrações ao Tata Inti e a Pachamama, essas pessoas seguem pulsando suas ontologias, mesmo estando a tamanha distância de altitude e longitude. Pelas palavras de Tuaza, sobre o caso equatoriano,
a festa do Inti Raymi ultrapassou as fronteiras do Equador. Em Chicago, no Condado de Queens, em Nova York; em Toronto, em Navarra e em Madri, em Manchester e em Budapeste, indígenas e mestiços equatorianos dançaram ao ritmo da música autóctone, organizaram campeonatos de futebol e ecuabol (variante equatoriana do vôlei) e ofereceram frutas à Pachamama (Mãe Terra) [6]
Estas pessoas, famílias, comunidades migram de Estados plurinacionais (na lei e na intenção de alguns) para outros territórios com outros esquemas étnico-raciais e outras heranças e presentes políticos e, inevitavelmente, transformam a festa conforme esses outros paradigmas. No caso de São Paulo, nessa metrópole definitivamente multicultural, mas não exatamente intercultural, por diversos fatores - entre eles, o racismo estrutural e a xenofobia sistemática vividas na capital paulista, o fortalecimento de redes migratórias coesas e as dificuldades de tradução entre esquemas raciais diferentes - essas comunidades por vezes são levadas a viver a cidade e região sem grande conexão com outros setores sociais locais. No entanto, seja a conquista de uma nova alteração na lei municipal como a realização do Ano Novo na Praça Kantuta denotam caminhos de confluência que vão sendo criados e caminhados, demarcando vivências partilhadas e afirmando exercícios da tal plurinacionalidade rearticulada em contexto migratório.
Graças a mobilização de parte da comunidade kichwa otavalo, apoiada por lideranças andinas peruanas do movimento migrante e representada na assembleia municipal pelo então Vereador Eduardo Suplicy, a Lei nº 14.485 [11], de 19 de julho de 2007, é alterada para incluir o Ano Novo Andino - Inti Raymi no Calendário de Eventos da Cidade de São Paulo [12]. Na justificativa do Projeto de Lei 0240-2019 que foi base para a mudança da lei municipal [13], Suplicy relembra a Política Municipal para a População Imigrante (instituída pela Lei municipal nº 16.487/16 [14]), territorializa as referências de origem das festividades do Ano Novo Andino na Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru, mencionando o “legado ancestral incaico”, e assinala ainda a importância “do reconhecimento dos povos originários migrantes no desenvolvimento da cidade de São Paulo” [13].
No mesmo ano da publicação desse projeto de lei, em 2019, pela criação e mobilização do Centro Cultural Andino Amazônico, integrado principalmente por pessoas aymaras bolivianas, mas também por pessoas quechuas e por algumas pessoas não indígenas de nacionalidades andinas e brasileiros, surge uma versão amplificada do Ano Novo Andino Amazônico. Replicando a intenção ideológica e a nomeação oficial dada pelo Estado Plurinacional da Bolívia, o Centro Cultural incorpora essa nomenclatura tanto para o próprio coletivo como para a festividade. Nesse ano, como também no Ano Novo de 2022, em Itaquaquecetuba, em 2023 e em 2024 no Parque D.Pedro I, e em 2025, na Praça Kantuta, foram convidados e compareceram representantes de diversas comunidades imigrantes, indígenas e religiosas da região metropolitana de São Paulo. Em 2023, o Centro Cultural nomeou a festividade como Ano Novo Andino Amazônico Afro, justamente em reconhecimento aos participantes afro-aymaras bolivianos, mas também aos amigos e amigas afrodescendentes e africanos que participam da celebração a cada ano. Mais adiante, em 2025, retomaram um dos termos aymaras para designar a festa: Willka Kuti, o Retorno do Sol. Vale então relembrar algumas das palavras de Sandra Copa que em muito podem ilustrar esse caso do Ano Novo organizado pelo Centro Cultural Andino Amazônico enquanto uma festividade “que girou em torno do tema do kuti (retorno às raízes), protagonizado por migrantes aymaras” [8]. Aqui as lideranças são pessoas aymaras migrantes além das fronteiras republicanas boliviano-brasileiras, em mobilidade além do bioma andino, que giram num movimento entre retornar às suas raízes - retomando o nome em aymara — e confluir com a diversidade étnico-cultural local e regional — incluindo o “amazônico” (já de inspiração na plurinacionalidade boliviana) e o “afro” (inovação diante do contexto brasileiro).
Seja enquanto Ano Novo Andino - Inti Raymi, como inscrito na lei municipal, seja como Willka Kuti ou Ano Novo Andino Amazônico Afro, as festividades andinas de junho seguirão tensionando o contexto racista xenofóbico que estrutura o país e a grande São Paulo, questionando o multiculturalismo paulista e amplificando novos caminhos para possíveis confluências étnico-culturais em homenagem ao Sol. Afinal, “o Tata Inti brilha para todos” como dizia Mama Elena Abya Yala, amawt’a quechua boliviana, que fez as cerimônias do Ano Novo organizado pelo Centro Cultural Andino Amazônico em 2024 e 2025.

Agradeço aos amigos e amigas do Centro Cultural Andino Amazônico que me possibilitam integrar a organização dos Anos Novos Andinos desde 2021, em São Paulo, e que me ensinam tanto a cada novo ciclo. Agradeço também às amigas pesquisadoras andinas e andinistas que ofereceram seu tempo e conhecimento para rever este texto: Rocio Quispe Yujra, Juan Cusicanqui, Monica Huanca, Chryslen Gonçalves e Mariana Teófilo.
Foto de capa: Momento da recepção dos primeiros raios do Sol da manhã do dia 21 de junho de 2025, na Praça Kantuta, São Paulo (Crédito: Leonor Hills).
Referências
[1] Inti raymi Sao paulo 2013. [S.l.: s.n.], 2013. 1 vídeo (2 min e 35 seg). Publicado pelo canal andres VG. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=B2nkvrUdEyk. Acesso em: 1 abr. 2026.
[2] INTI RAYMI SAO PAULO BRASIL - RESUMEN. [S.l.: s.n.], 2022. 1 vídeo (58 min). Publicado pelo canal ROBERTO DE LA TORRE - SHADAY FILMS. Disponível em:https://youtu.be/FBjW6-zjyxQ?si=NLaxpFtX42TcoGLs Acesso em: 1 abr. 2026.
[3] Borges Delfim, Rodrigo. Pela 1ª vez, Brasil recebe em SP a Inti Raymi, a Festa do Sol. Migramundo, São Paulo, 18 jun. 2014. Disponível em: https://migramundo.com/pela-1a-vez-brasil-recebe-em-sp-a-inti-raymi-a-festa-do-sol/. Acesso em: 1 abr. 2026.
[4] VEGA, Juan José; GUZMÁN PALOMINO, Luis. El Inti Raymi Inkaico. La verdadera historia de la gran fiesta del Sol. UNMSM v. 6, n. 1, p. 37-71, 2005. Disponível em: https://sisbib.unmsm.edu.pe/BibVirtual/publicaciones/antropologia/2003_N01/a05.htm# Acesso em: 1 abr. 2026.
[5] Chukiwanka, Inka Waskar, Restablecimiento del Inti Raymi en Tiyawanaku. 2017 [2001]. Disponível em: https://archive.org/details/pukara-119/page/n7/mode/2up Acesso em: 1 abr. 2026.
[6] Luis Alberto Tuaza, “La fiesta del Inti Raymi en la construcción del Estado plurinacional en el Ecuador”, Amérique Latine Histoire et Mémoire. Les Cahiers ALHIM, 33 | 2017. Disponível em: http://journals.openedition.org/alhim/5703 Acesso em: 1 abr. 2026.
[7] Macusaya, Carlos. “El surgimiento del año nuevo aymara 2017”, Jichha. 2017. Disponível em: https://jichha.blogspot.com/2017/06/el-surgimiento-del-ano-nuevo-aymara.html Acesso em: 1 abr. 2026.
[8] Copa, Sandra Cáceres, “Año nuevo aymara: entre recuperación colonialista y autenticidad qullana”, Pukara nº 8, 2006, pág. 12. Disponível em: https://archive.org/details/pukara-8 Acesso em: 1 abr. 2026.
[9] Carlos Macusaya en entrevista 2025 [QHAPAJ ÑAN-ALPACA]. [S.l.: s.n.], 2025. 1 vídeo (7 min). Publicado pelo canal Alpaca Producciones. Disponível em: https://youtu.be/eD_R4-YCv4c?si=riIAndSDzBc5U5Gi Acesso em: 1 abr. 2026.
[10] Portugal, Pedro. “Año Nuevo Andino Amazónico: la tradición inventada”, Jichha. 2016. Disponível através do link: https://jichha.blogspot.com/2016/06/ano-nuevo-andino-amazonico-la-tradicion.html Acesso em: 1 abr. 2026.
[11] São Paulo (São Paulo). Lei nº 14.485, de 19 de julho de 2007. São Paulo, 19 jul. 2007. Disponível em: https://legislacao.prefeitura.sp.gov.br/leis/lei-20000-de-19-de-julho-de-2007 Acesso em: 1 abr. 2026.
[12] São Paulo (São Paulo). Lei nº 17.279, de 15 de janeiro de 2020. São Paulo, 15 jan. 2020. Disponível em: https://legislacao.prefeitura.sp.gov.br/leis/lei-17279-de-15-de-janeiro-de-2020 Acesso em: 1 abr. 2026.
[13] São Paulo (São Paulo). Justificativa Projeto de Lei nº 0240/2019, de 24 de maio de 2019. São Paulo, 24 maio 2019. Disponível em: https://www.saopaulo.sp.leg.br/iah/fulltext/justificativa/JPL0240-2019.pdf Acesso em: 1 abr. 2026.
[14] São Paulo (São Paulo). Lei nº 16.478, de 08 de julho de 2016. São Paulo, 8 jul. 2016. Disponível em: https://legislacao.prefeitura.sp.gov.br/leis/lei-16478-de-08-de-julho-de-2016 Acesso em: 1 abr. 2026.
* Os termos em aymara são traduzidos de forma simplificada, em proporção a brevidade do texto. No entanto, é fundamental anotar que estes termos, em geral, não têm equivalente direto nas línguas latinas, pelo que a tradução é apenas uma aproximação sempre apta à equivocação própria das tentativas de tradução de mundos.
** Todos os excertos de falas ou citações escritas em espanhol foram traduzidos para português pela autora.