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Ritual do fio de despedida: rupturas e reatamentos nas migrações
Laura Almeida Nobre de Sousa - Analista de Pesquisa
Ao zarpar do navio, diante do emaranhado de sentimentos no momento da despedida, desponta um fio que simboliza o vínculo entre quem parte e quem fica. Este elemento de conexão física e afetiva, segurado em uma das pontas pelo emigrante e, na outra, por seus entes queridos, com o distanciamento da embarcação, acabará por se romper. Essa sucessão de acontecimentos caracteriza o ritual do fio de despedida, prática até hoje realizada em alguns portos do Norte do mundo e que alude às perdas afetivas do processo migratório.
Embora o local de origem desse ritual seja indefinido, há registros de sua ocorrência, durante o século XX, em portos da Itália, Japão e Coréia do Sul. No contexto europeu, embora haja somente uma fotografia dessa prática no Porto de Génova (STOLFI, 2003, p.56), na Itália, relatos escritos como o diário de Pietro Lucente [1] (s.d) permitem aferir a realização do ritual nesse país, conforme consta nos excertos a seguir:
Todas as cordas estão agora frouxas, mas à minha esquerda, à altura dos meus olhos, vejo um fino fio vermelho ainda esticado. Uma mulher segura um novelo de lã, enquanto um homem em terra segura a outra ponta. O novelo está diminuindo de tamanho à medida que a embarcação se afasta do cais.
[...]
A mulher ao meu lado, quando o novelo de lã se reduziu a um único fio vermelho, o último, e este lhe escapou da mão, soltou um grito e começou a chorar descontroladamente [tradução nossa] (LUCENTE, s.d) .
Diferentemente do contexto dos excertos acima, no Japão, o ritual era realizado com fitas coloridas de papel, chamadas Kami tēpu, assim como é possível observar em fotografias do Buenos Aires-Maru (ASSOCIAÇÃO MOKITI OKADA, 1988; ASSOCIAÇÃO JAPÃO-BRASIL 2017, p.9 e 10), navio que em 1941 trouxe a última leva de imigrantes japoneses para o Brasil antes da Segunda Guerra Mundial (EMBAIXADA DO JAPÃO NO BRASIL, 2025). Atualmente, portos de cidades japonesas como o Porto de Tsuruga e o Porto de Sado, continuam realizando a prática das fitas como uma maneira de recepcionar e se despedir dos turistas que visitam essas localidades (SAKAMOTO, 2023).
Registros de fitas sendo utilizadas no ritual do fio de despedida também constam no acervo iconográfico do Museu da Imigração/Arquivo Público do Estado de São Paulo (APESP), por meio de imagens de migrantes embarcando rumo ao Brasil no Porto de Kobe (figura 2), Japão, na década de 1930, e no Porto de Busan, Coréia do Sul, em 1962 (figura 3).


A partir desses registros históricos, a artista visual Keila Okubo criou a obra instalativa Entre lugares (foto de capa), 2026, site-specific comissionado para a exposição Reatar [2], mostra temporária do Museu da Imigração que aborda as relações entre os têxteis e as migrações. Entre lugares versa sobre as rupturas do processo migratório e os vínculos reatados pelas pessoas migrantes em seus novos locais de morada. A artista propõe essa reflexão a partir de um portal de fios que ambientaliza o visitante na temática têxtil e o direciona à fotografia histórica do ritual do fio de despedida realizado no Porto de Kobe (figura 2). Sobre a imagem em preto e branco, fios vermelhos bordados realçam as conexões afetivas entre quem parte e quem fica, e ganham vida ao se interligarem com malas de viagem, uma alusão a todos os vínculos do país de origem que o migrante leva consigo. Além de tratar sobre um sentimento comum a todos os migrantes, a obra também dialoga com a própria trajetória de Okubo, que comenta:
Apesar da instalação ter a foto central de 1930, ela fala muito sobre mim. Sou neta de japoneses, mas também tenho a sensação, comum aos migrantes, de estar entre as pátrias. Há fios que me conectam aos dois países, mas minha identidade e a busca por pertencimento são tecidos entre lugares [relato cedido por Keila Okubo para o Museu da Imigração no dia 10 de setembro de 2026].
A fala da artista reitera que Entre lugares não alude somente aos laços afetivos das pessoas presentes na imagem que compõe a instalação, mas representa o rompimento — físico e emocional — que faz parte do processo migratório de indivíduos de diferentes culturas, contextos e gerações. Essas experiências distintas são materializadas por Okubo a partir da diversidade de fibras, fios, acabamentos, texturas e tonalidades de cores utilizadas no portal, além dos diferentes tipos de nós atados manualmente e que representam as múltiplas narrativas que se reconhecem no ritual do fio de despedida.
Entre lugares é a primeira obra com que o visitante se depara ao entrar na exposição Reatar. Posteriormente, as temáticas das migrações e seus reatamentos continuam presentes em cada um dos cinco módulos: Fibras aos fios, Fios aos tecidos, Tecido à vestimenta, Vestimenta aos corpos-território e Usos aos resíduos. Através de itens do acervo do museu e de indumentárias de artistas têxteis e grupos migrantes, os eixos curatoriais abordam o significado das fibras, fios e tecidos para diferentes culturas, a presença de pessoas migrantes na indústria têxtil paulista, o papel da indumentária como reafirmação da cultura e do território de origem, e projetos que repensam a utilização de resíduos e o descarte de roupas.
Foto de capa: Instalação Entre lugares, 2026, da artista Keila Okubo e que integra a exposição Reatar do Museu da Imigração, São Paulo, SP (Divulgação/Museu da Imigração).
[1] Lucente partiu da Itália com sua mãe, em 1954, rumo a Buenos Aires. O diário de Pietro Lucente foi transcrito pelo projeto “Italianos no Exterior: Diários Contam”, de autoria do Arquivo Nacional de Diários de Pieve Santo Stefano, instituição que realiza a transcrição dos diários de imigrantes italianos do século XIX e disponibiliza trechos dos textos no site do Ministério de Relações Exteriores e de Cooperação Internacional da Itália.
[2] A exposição Reatar, inaugurada no dia 31 de julho de 2026 e em cartaz até março de 2027, conta com a curadoria da Equipe de Pesquisa do Museu da Imigração, composta por Thiago Haruo, Cristina de Branco e Laura Sousa.
Referências bibliográficas
ASSOCIAÇÃO JAPÃO-BRASIL. De Kobe para o mundo, do mundo para Kobe. Kobe: Associação Japão-Brasil, 2017
ASSOCIAÇÃO MOKITI OKADA. 80 anos da imigração japonesa no Brasil. São Paulo: Associação Mokiti Okada, 1988./
EMBAIXADA DO JAPÃO NO BRASIL. História dos 130 anos de amizade Japão-Brasil (século XIX - década de 1940). Brasília, DF, 15 jan. 2025. Disponível em: https://www.br.emb-japan.go.jp/itpr_pt/ano-intercambio-amizade-jp-br-historia.html. Acesso em: 8 set. 2026.
LUCENTE, Pietro. La fine del gomitolo [A ponta do novelo de lã]. Ministero degli Affari Esteri e della Cooperazione Internazionale, s.d. Disponível em: https://www.idiariraccontano.org/estratti/la-fine-del-gomitolo/. Acesso em: 8 set. 2026.
SAKAMOTO, Fusae. Quando começou o costume de usar "serpentinas de papel de despedida" quando um navio parte?. Kagoshima: Mishima Kikai Caldera Geopark, 2023. Disponível em: https://geomishima.jp/tourism/3357/. Acesso em: 8 set. 2026.
STOLFI, Emanuele (org.). Italiani nel mondo. Milano: Mondadori, 2003.