Blog
Compartilhe
Projeto Línguas Migrantes: Construindo um modelo de formação de educadores no campo das migrações
Prof. Dr. Alan Carneiro – Depto. de Letras, Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)
Raquel Freitas - Supervisora de projetos e pessoas
TEXTO 3
Em 2021, quando foi iniciado, de fato, o projeto Línguas Migrantes, embora houvesse avanços nas reflexões sobre os fluxos migratórios para o contexto brasileiro e a questão do ensino de Português como Língua de Acolhimento (PLAc) já estivesse mais consolidada, a compreensão das políticas mais específicas que eram necessárias para o acolhimento de imigrantes na escola pública regular ainda representava um desafio. Assim sendo, não era fácil tomar decisões em relação ao que priorizar como conhecimentos relevantes para professores e equipe escolar em um curso de formação sobre a temática migratória.
Embora tivéssemos um público alvo definido, a saber, como mencionamos no texto anterior, as equipes de Escolas Municipais de Educação Infantil (EMEIs) e uma preocupação com as questões de comunicação intercultural, precisávamos pensar em quais seriam os blocos de conhecimentos importantes que poderiam compor a experiência formativa. A formação em serviço como seria o caso do curso que estávamos planejando, certamente, era e ainda é uma das tarefas mais desafiadoras no campo da formação de professores e de outros profissionais, pois, em muitos casos, os participantes das formações já são graduados, alguns são pós-graduados e outros têm uma longa trajetória de atuação na educação. O reconhecimento dos saberes que esses profissionais já têm deve ser o ponto de partida dos projetos formativos, adicionando, porém, olhares diferenciados para aquilo que já dominam, levando em consideração também dimensões práticas que possam auxiliá-los na construção de suas ações pedagógicas ou em sua prática profissional.
Se por um lado era importante considerar a trajetória de quem seria formado, por outro, não podíamos deixar de pensar naquilo que tínhamos como fundos de conhecimento no grupo de formadores. Tínhamos um grupo potente, que envolvia profissionais graduados e pós-graduados de diversas áreas do conhecimento, como Letras, História, Pedagogia, Ciências Sociais e Psicologia; porém, bastante heterogêneo. Por isso, foram necessárias várias discussões para delinear o programa geral do curso, considerando os conhecimentos que os participantes da rede traziam a partir de suas trajetórias de formação e de suas experiências profissionais e aquilo que considerávamos importante para os professores e as equipes escolares que estariam em formação.
Tínhamos algumas intuições de dimensões importantes que precisavam estar presentes: 1) informações sobre os fluxos migratórios e sobre termos-chave relacionados às migrações; 2) a discussão sobre acolhimento educativo e linguístico no ambiente escolar; 3) o debate sobre o preconceito e a discriminação sofrida pelos imigrantes, analisando sob a ótica da xenofobia, do racismo e do xenorracismo; 4) a relevância da articulação de redes no desenvolvimento de práticas de educação intercultural e para o atendimento de situações mais complexas no acolhimento de famílias migrantes; 5) as demandas de educação linguística específica de determinadas comunidades, considerando suas práticas multilíngues e multiletradas, suas trajetórias de migração e estabelecimento no Brasil; 6) a reflexão sobre educação na infância, educação integral e sobre o papel dos territórios como espaços de construção de saberes na interrelação com a escola. Para além disso, achávamos que seria importante uma dimensão de formação prática voltada para a construção de projetos que fizessem sentido no ambiente escolar, tendo em vista as experiências provenientes da educação escolar, mas também da arte-educação. Foi assim que decidimos os seguintes temas em sequência para a oferta do primeiro curso:
Semana 1 – Direito de migrar, direito à educação e direitos de aprendizagem
Semana 2 – Migrações, educação e acolhimento linguístico
Semana 3 – Relações étnico-raciais, antirracismo e combate à xenofobia na escola
Semana 4 – Construindo redes: os caminhos da educação intercultural
Semana 5 – Diversidade cultural e educação plurilíngue
Semana 6 – Educação Infantil, Educação Integral e Territórios Educativos
Semana 7 – Organizando projetos na educação infantil
Semana 8 – Orientação em grupos para o desenvolvimento de projetos
Semana 9 e 10 - Apresentação dos projetos finais
Coincidentemente, em 2021, foi publicada a primeira edição do Currículo dos Povos Migrantes, produzido pela Secretaria Municipal de Educação (SME) de São Paulo, que se tornou leitura obrigatória, dividida em capítulos, depois das quatro primeiras aulas, uma vez que o documento tinha bastante alinhamento temático com a proposta do curso [1]. No entanto, a nossa proposta, em vários aspectos ia além do currículo, sobretudo, no que se refere aos debates sobre educação integral [2], a educação do entorno [3], a relação com os territórios [4] e a construção de projetos.
A ideia era que no percurso formativo, os professores pudessem progressivamente ir se familiarizando ou revendo seus entendimentos sobre as temáticas propostas, sobretudo, aquelas que consideramos centrais no campo das migrações: o direito de migrar; o direito ao exercício da cidadania linguística; o respeito às diferenças culturais e a necessidade de uma postura antirracista no âmbito da comunidade escolar. Mas que pudessem também ser formados para a compreensão das múltiplas possibilidade de trabalho com a diversidade linguística a partir dos debates sobre multilinguismo, educação bilíngue, intercompreensão linguística e pedagogias translíngues; as orientações curriculares, as potencialidades e a multiplicidade de caminhos pedagógicos na educação infantil a partir dos territórios e as ações a serem tomadas quando as situações demandam a articulação de redes inter e intra institucionais.
No desenvolvimento dos projetos, a ideia era que cada grupo de professores de diferentes escolas pudessem pensar em projetos educativos que fizessem sentido para a sua comunidade escolar. Embora as escolas que procuraram o Museu da Imigração, em 2020, fossem quatro - as EMEIs Patrícia Galvão, Armando de Arruda Pereira, Gabriel Prestes e Monteiro Lobato integrantes do projeto coletivo “Território Educativo das Travessias”, localizadas entre Higienópolis, República e Consolação -, havia ainda professores de outras escolas participando do curso como da EMEI João Theodoro, localizada no Bom Retiro, e da EMEI Profa. Fátima Regina da Cruz Sabino Calaça, localizada no Jardim São Savério, na Zona Sul, entre outras.
Isso fez com que os projetos fossem distintos e com características específicas. Na EMEI Gabriel Prestes, por exemplo, o projeto desenvolvido tinha como título “Acolhimento Sem Fronteiras” e tinha como objetivos principais: 1) ampliar a paisagem linguística da unidade, tornando o ambiente escolar mais plurilingue, abrindo espaço para outras línguas coexistirem com o português e 2) aprimorar o acolhimento das famílias migrantes, pensando nos diversos momentos do contato da família com a escola, incluindo do primeiro contato até a manutenção do vínculo. Como objetivo específicos, o projeto visava melhorar as competências instrumentais da equipe escolar em diferentes línguas com o apoio da comunidade, traduzir materiais necessários para inserção inicial dos imigrantes para várias línguas e desenvolver protocolos de acolhimento.
No grupo da EMEI Patrícia Galvão, o projeto denominado “Famílias e crianças migrantes contam suas histórias, culturas e tradições em conversa com o currículo escolar através da pedagogia participativa” tinha como objetivo: 1) aprimorar o acolhimento escolar dos povos migrantes a partir da compreensão das suas culturas, costumes, conhecimentos e experiências como elo integrador no processo de adaptação social, 2) abordar o tema das migrações contemporâneas em sua complexidade de forma regular e ao longo do ano, transformando o currículo, com um viés crítico para além do eurocentrismo, trazendo a temática étnico-racial e abrindo espaço para outros saberes e 3) valorizar os conhecimentos, saberes, práticas e narrativas das crianças e famílias migrantes, trazendo esses elementos para o currículo vivido na EMEI Patrícia Galvão. Como ações do projeto, a ideia era trazer pessoas que trabalham com a questão migratória ou membros da comunidade migrante para atividades que abordassem diferentes temáticas e que pudessem envolver algum tipo de aprendizagem na escola. Assim sendo, os temas e palestrantes elencados poderiam tratar de diferentes questões: poderia ser um funcionário do CRAI Oriana Jara, por exemplo, para falar sobre acolhimento de migrantes e a mobilização de redes ou algum migrante que pudesse falar sobre e ensinar sobre a música ou alguma dança de seu país.
Infelizmente, não pudemos acompanhar de perto em que medida o desenvolvimento desses projetos ocorreu ou não no ano seguinte, em 2022, conforme era previsto nos projetos construídos pelos professores, já que a orientação recebida foi para a construção de projetos que pudessem ser efetivados. Cabe destacar que essa primeira edição do curso foi realizada inteiramente no formato virtual - em dez encontros, com um total de 20 horas - ainda no fim do ciclo da pandemia de COVID-19, como um curso de extensão da Unifesp com o nome de “Línguas Migrantes - trabalhando com múltiplas línguas e linguagens na educação infantil”. Apesar das limitações do meio virtual, foi a edição mais longa e com maior integração da equipe envolvida. Antes de cada aula, fazíamos uma prévia das discussões e distribuímos tarefas no grupo. Havia sempre uma atividade de aquecimento, uma parte expositiva e uma parte reflexiva, coletiva ou em grupos, no final. O estudo realizado para a produção desse primeiro curso, bem como as reflexões desenvolvidas para cada uma das aulas marcou, de forma definitiva, a organização das outras edições do curso, mas estes acabaram sendo estruturados em outros formatos. No próximo texto da série, abordaremos como foram estruturadas as edições de 2024, 2025 e 2026, já no âmbito de um convênio específico entre o Museu da Imigração e a Secretaria Municipal de Educação, mas, com a manutenção da colaboração da Unifesp e do CRAI Oriana Jara.
Notas
[1] São Paulo (Cidade). (2021). Secretaria Municipal de Educação. Currículo da cidade : povos migrantes : orientações pedagógicas. 1a. ed. São Paulo: SME / COPED.
[2] Centro de Referência em Educação Integral. Educação Integral nas Infâncias: pressupostos e práticas para o desenvolvimento e a aprendizagem de crianças de 0 a 12 anos. São Paulo: Centro de Referência em Educação Integral e Instituto C & A, 2017.
[3] Maher, T. M. A Educação do Entorno para a Interculturalidade e o Plurilinguismo. In A.B. Kleiman e M. C. Cavalcanti (orgs.) Lingüística Aplicada – suas Faces e Interfaces. Campinas, SP: Mercado de Letras, 2007, p. 255-270
[4] Centro de Referência em Educação Integral. Territórios Educativos para Educação Integral. Série Cadernos Pedagógicos (12). São Paulo: Centro de Referência em Educação Integral e Instituto C & A, 2017.